Já é possível dizer que o GP dos Países Baixos entregou um roteiro detalhado sobre como o campeonato 2026 da F1 pode se transformar daqui em diante. A reviravolta conduzida pela McLaren ao longo do fim de semana neerlandês mostrou que a disputa pelo título não parece tão previsível assim quanto antes e que há uma chance de a temporada testemunhar capítulos bem semelhantes àqueles vividos em 2025. Enquanto a Mercedes parou no tempo de um ponto de vista técnico — e esportivo, de certa forma —, a equipe papaia investiu pesadamente e acertadamente nas atualizações do MCL40, tendo ainda um Lando Norris maduro e mais consciente após a experiência de colocar na prateleira de casa a taça do mundo. Tudo bem que a diferença na ponta da classificação é considerável, mas a história também ensina que nada pode ser tomado como certo neste esporte.
A verdade é que há uma excelência no trabalho de Norris e da McLaren. É fato que a esquadra inglesa começou a temporada vários passos atrás de Mercedes, Ferrari e até mesmo Red Bull. A confiabilidade tirou o sono e pontos importantes. As falhas técnicas cobraram um preço alto — como o abandono duplo no GP da China, danos no motor em Mônaco e câmbio na Hungria. O time também levou algum tempo para ajustar as atualizações. De novo, Miami foi o ponto de destaque em meio ao início da temporada, antes de um progresso realmente interessante na fase europeia, até a corrida em Budapeste, palco do primeiro grande pacote de novidades. Ao contrário da Ferrari — única a quebrar o domínio da Mercedes até então —, a McLaren venceu em cima da performance pura, e isso se repetiu em Zandvoort.
“Estou confiante porque claramente temos um carro forte”, afirmou Norris após a vitória deste domingo (23). “Temos um carro competitivo em certas áreas. Não é como no ano passado, quando éramos muito bons em tudo. Mas somos muito, muito fortes em alta velocidade, e é nesse aspecto que mais aprimoramos o carro: no desempenho em alta velocidade. Ninguém nos iguala em alta velocidade, e isso é ótimo.”
Como em anos anteriores, a equipe soube como tornar o modelo um carro vencedor. Agora, o MCL40 tem uma identidade. Aprecia circuitos sinuosos e gostar de curvas de alta velocidade, embora ainda sofra com o desempenho em reta. Até por isso, as vitórias em série não aconteceram por acaso. É um trabalho consciente da engenharia britânica. Mas há também um outro ponto importante em tudo isso: o campeão vigente.
Norris tem sido um dos pilotos mais regulares de 2026, e isso tem feito a diferença. O inglês parece entender bem as demandas do carro laranja e como tirar o melhor dele. Em Zandvoort, Lando demostrou um pouco mais dessa versão pós-título. Mesmo perdendo a liderança na segunda largada, o piloto enfrentou o primeiro stint com paciência e sem deixar Andrea Kimi Antonelli escapar na frente. Quando as paradas vieram, Norris foi para cima, fez ultrapassagens em pista, com destaque para a disputa final contra o italiano, que contou com a participação luxuosa de Lewis Hamilton. Uma vez na ponta, o britânico não vacilou e levou a McLaren ao triunfo pela segunda vez consecutiva no ano.
“Lando está pilotando e operando em um nível muito alto”, elogiou Andrea Stella. “Ele está guiando no nível de um campeão mundial. E o que mais gosto na trajetória dele na Fórmula 1 é que ele continua melhorando. Após o início da temporada de 2025, algo se encaixou, e não foi apenas um encaixe isolado, mas sim uma forma de trabalhar com Lando, para Lando, e isso o levou a melhorias contínuas.”

“Lando está cada vez mais forte a cada corrida. Porque acho que este fim de semana não foi nem de perto um fim de semana em que pudéssemos lutar pela vitória com certeza, especialmente após a sprint, quando perdemos para Mercedes e Ferrari. Só que investimos em tentar entender o que havia para explorar e melhorar”, emendou o dirigente.
De fato, a McLaren trabalhou em mudanças profundas que proporcionaram depois um melhor comportamento do carro em termos de aderência e equilíbrio. Talvez tenha sido a equipe que melhor cuidou dos pneus em Zandvoort, e isso só foi possível também diante do desempenho de Norris. “Uma corrida de cada vez”, reforçou Lando. “Eu sei que muita gente diz isso agora, mas é a verdade. Não adianta pensar tão longe.”
“Foram dois ótimos fins de semana, mas ainda há muitas coisas que podemos fazer melhor, e precisamos fazer melhor se quisermos lutar pelo campeonato. Ainda está mais difícil do que eu gostaria, e não quero que a diferença aumente, então temos de continuar trabalhando duro. Ainda há muitas corridas, muitas oportunidades. Então, vou manter a cabeça no lugar e seguir trabalhando.”
No momento, são 83 pontos de diferença para Antonelli com, em tese, 11 etapas até o fim do campeonato — o calendário ainda pode mudar devido às incertezas das provas do Oriente Médio. Alguém há de dizer que, em 2025, Max Verstappen foi capaz de construir uma remontada extraordinária, em que descontou mais de 100 pontos na segunda fase da temporada, terminando a disputa com dois tentos de déficit para o campeão Norris. O próprio acha difícil reproduzir o mesmo roteiro e tem razão em adotar a cautela, uma vez que a Mercedes ainda é forte e tem em Kimi um piloto veloz e que parece compreender muito bem as exigências da briga, apesar da pouquíssima experiência.
Além disso, não parece mais existir um confronto dentro das garagens alemãs. George Russell perdeu espaço, e a ordem de equipe deste domingo também se mostrou como um recado claro de que o time de Toto Wolff deve priorizar mesmo o campeonato de Antonelli.

Então, realmente é verdade que existe um cenário um pouco diferente em relação ao último ano, mas é igualmente certo dizer que há um aspecto que não pode ser descartado: a McLaren e Norris têm nas mãos não só um equipamento forte o bastante, mas também o momento da temporada.
Mesmo que leve uma vantagem técnica em algumas pistas, como Monza, Baku, Malásia e Las Vegas, a Mercedes não possui o mesmo nível de desenvolvimento da rival laranja. As atualizações do W17 são espaçadas e não há nada previsto a curto prazo. E é importante colocar aqui: a equipe prata ainda decidiu trocar as peças do motor de Antonelli na Itália, o que vai levá-lo a perder posições no grid de largada. Um revés que os papaias não podem desconsiderar.
Portanto, o campeonato está aberto a uma reviravolta e, neste momento, somente a McLaren e essa melhor versão de Norris têm potencial para tirar proveito. Ou ao menos infernizar a vida das Flechas de Prata. E se no começo do ano, Lando lamentava não estar na briga pela defesa do título, essa realidade mudou. A sorte não bate duas vezes.
A Fórmula 1 volta de 4 a 6 de setembro em Monza, palco do GP da Itália, 13ª etapa da temporada 2026.