SÃO PAULO (estamos de olho) – Não sou de ficar reclamando. Só porque perdi três horas da minha vida esperando uma credencial na quarta-feira, levei uma hora na quinta entre o túnel debaixo da pista e o estacionamento, a faixa de carros credenciados hoje estava cheia de carros não credenciados, o trajeto da minha casa […]
Publicado em 02/11/2024 às 13:38
Atualizado em
5 min de leitura
Compartilhar
SÃO PAULO(estamos de olho) – Não sou de ficar reclamando. Só porque perdi três horas da minha vida esperando uma credencial na quarta-feira, levei uma hora na quinta entre o túnel debaixo da pista e o estacionamento, a faixa de carros credenciados hoje estava cheia de carros não credenciados, o trajeto da minha casa até a pista me tomou duas horas, a sala de imprensa é uma cabana sem vista para a pista e exige subir uma escadaria de 62 degraus até o paddock?
Não, não reclamo.
Porque quem tem de reclamar é esse pessoal aí embaixo.
João Felipe Coelho Viterbo é um leitor deste blog, espécime bem raro, e mandou a foto. Diz no e-mail: “Professor, só mandando porque sei que você faz cobertura séria do GP. Portão do setor G fechado, 11:33 da manhã. Minha primeira vez em Interlagos, cheguei na fila às 9:30 e não consegui ver a Sprint. Abraço e bom trabalho. Tô acompanhando tudo lá no blog!”.
Setor G, o mais “popular”: portões fechados, polícia sem fazer nada
Essas pessoas têm muito do que reclamar. No Grande Prêmio, nossa equipe está produzindo uma reportagem sobre a desgraça de milhares de torcedores que chegaram às 7h, 8h em Interlagos, e até o meio-dia não tinham conseguido entrar no autódromo. Perderam a Sprint e as corridas de apoio. Ficaram três, quatro horas em filas amorfas e hostis. Tudo por pura falta de organização.
Nunca vi nada parecido, nem nos anos 90. E, agora, tem-se na F-1 um público mais estridente. Há 30 anos, era uma galera acostumada a perrengues. Torcedores forjados nos barrancos de Interlagos e no calderião de Jacarepaguá. Sabiam se virar.
Hoje, não. São pessoas habituadas a QR codes, e-mails de validação, mensagens de SMS e “check in”. Se alguma coisa não dá certo, vão às redes sociais e “xingam muito no Twitter”, como se dizia há anos.
(Dá para acreditar que maneirismos do Twitter, que nem tem mais esse nome, são coisas de um passado que parece tão remoto?)
Multidão na rua: lerdeza para entrar no autódromo
E são pessoas que além de xingar muito no Twitter (e no “face”, no “insta”, no TikTok, e na puta que pariu), procuram culpados muito rapidamente. Estão no seu direito. Tenho certeza que boa parte dessa multidão da foto acima deve estar culpando o Lula. A massa do público do automobilismo é majoritariamente de direita e culpa o Lula por tudo. E a esquerda e os comunistas. Hoje vi um cara que, atendendo à solicitação da organização para usar as cores do Brasil para homenagear “nosso Ayrton”, desfilava com uma camiseta amarela da Havan.
A culpa, patriotas, é dos organizadores. E da Prefeitura do prefeito Ricardo Nunes, que administra esta pocilga através de uma empresa pública, a SPTuris, e precisa cuidar dela de forma a oferecer algum conforto a quem paga ingressos caríssimos — em vez de ficar se preocupando com os vips nos camarotes. Prefeitura que asfaltou a pista e ficou uma merda, como disseram os pilotos.
Parece papo antigo e fora de época, mas não é. Porque se é verdade que havia perrengues no passado, posso garantir que não se cobrava para este evento o que se cobra hoje. Um amigo querido que veio com sua filha está num setor de arquibancada de 4 mil reais por cabeça que não tem espaço para os pés.
Fiquei assustado quando cheguei hoje pela manhã. Uma multidão ao longo da avenida Interlagos para a entrada em vários setores, poucas catracas, gritaria, gente passando mal, dezenas de viaturas da PM e da Guarda Civil, além das motos dos policiais sobre as calçadas apenas atrapalhando o trânsito e o fluxo das pessoas, que precisam o tempo todo desviar das “autoridades” para perguntar algo a não se sabe quem sobre o que não saberão responder.
Na boa, quando a F-1 veio para cá em 1990 eu achei que os acessos a Interlagos e a proverbial desorganização brasileira não suportariam a quantidade de gente que um GP movimenta. Mas, para enorme surpresa de todos, foram anos de absoluta calmaria. Paravam-se os carros em bolsões de estacionamento e apenas ônibus levavam o povo ao autódromo. Carros, só os de serviço e credenciados. Funcionava muito bem. A prefeita Luiza Erundina e sua equipe, mais a Interpro, que promovia a corrida, souberam domar as multidões.
O problema é que nos últimos anos foram multiplicando setores, ampliando as áreas de “hospitality” dentro do circuito, botando muito mais gente em cada centímetro disponível de Interlagos, criando ingressos que não se limitam mais a um cartão ou um papel, exigem celulares, validações, códigos, senhas, inventaram de revistar todo mundo porque não se pode mais entrar no autódromo nem com uma caixinha de cotonetes, e em vez de aumentarem a segurança, transformaram tudo numa desgraça.
Não há muito o que dizer para quem ficou três, quatro, cinco horas na fila e perdeu o que aconteceu até agora por aqui. Lamento, apenas. Processem a organização, a Prefeitura, a Eventim (“tiqueteira” oficial do evento). Não tem o menor cabimento não conseguirem organizar um evento para 70 mil pessoas. Um dos motivos dessa zona é que o estímulo ao transporte público e a proibição de carros particulares foram deixados de lado. Porque essa gente não pode proibir os exibicionistas de chegarem ao autódromo com seus Porsches & similares, não é mesmo? Reclamariam muito no “insta” e não conseguiriam produzir seus “conteúdos”.
É o que penso.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.