
SÃO PAULO (dias feliz de nossas vida) – A volta da Malásia ao calendário da F-1, ainda que só neste ano, é uma notícia legal. Foi gostoso ver na TV aquelas retonas imensas, mais largas que pistas de aeroportos (salve, Lito!). E, de novo, as velhas fotos com as coberturas das arquibancadas do autódromo que lembram cogumelos.
Sepang é legal. Estive lá muitas vezes desde 1999, quando foi realizado o primeiro GP no país. Era o circuito mais moderno do mundo, verdadeiramente impressionante. Vizinho do aeroporto igualmente impressionante de Kuala Lumpur, tinha tudo em tamanho GG: tribunas, áreas de circulação do público, estacionamentos, sala de imprensa, boxes com ar-condicionado, escritórios caprichados para cada equipe no paddock, acesso por rodovias, um negócio sensacional.
O problema era – é – o calor. E a umidade. Numa região equatorial, o clima é semelhante ao de Manaus e Belém. Chove bastante e sempre muito forte. Lembro que me chamaram muito a atenção na estrada os motoqueiros trafegando em geral pelo acostamento com jaquetas de couro vestidas ao contrário – para se protegerem do ar quente que subia do asfalto e vinha junto com o vento produzido pelo deslocamento de suas motos; um jeito de se defender daquele bafo dos infernos.

Foi em Kuala Lumpur que comprei meu terceiro (e último) relógio caro na vida, numa loja da TAG-Heuer no Suria KLCC, um shopping de seis andares que fica no sopé das Petronas Towers. São os dois prédios que marcam a paisagem da capital malaia, estão em todos os cartões postais. Lembro desses nomes porque tem várias coisas com KL por lá e a gente vai esbarrando em placas com essas siglas. O aeroporto, por exemplo, é KLIA – Kuala Lumpur International Airport. KLCC é City Center.
O relógio era um modelo Carrera lindíssimo, que comprei suando frio. Gastei 600 dólares da minha verba de viagem, que era fornecida por mim mesmo, já que viajava por conta própria pela minha agência de notícias, pagando passagem e hospedagem. Na época, a rádio onde também trabalhava entrava apenas com os custos dos aluguéis de carros – na Malásia, sempre um Proton, empresa criada pelo governo em 1983 para dar o pontapé inicial na indústria automobilística local. Foi-me roubado, o relógio, num assalto na alameda Santos. Eu dentro do carro, começo da noite, o ladrão me abordou no trânsito parado com algo por baixo da camiseta. Era um garoto, podia ser apenas seu dedo em forma de arma, mas na dúvida entreguei meu relógio. Isso tem bastante tempo, deve ter sido lá por 2000 ou 2001.
Ficamos, em 1999, num hotel chamado Mines Beach Resort, a mais de 40 km do autódromo. Quando digo “ficamos”, refiro-me a Fábio Seixas, então da “Folha”, com quem costumava dividir tudo nas viagens. Como era o primeiro ano da corrida, num tempo em que a internet ainda engatinhava, os organizadores enviaram à FIA, que enviou aos jornalistas, uma lista com locais de hospedagem. Essas coisas chegavam por fax. Nem todo mundo tinha e-mail. Aí a gente escolhia, telefonava, mandava outro fax, sei lá, e reservava. Achamos legal o “beach” e o “resort” no nome, não nos atentamos muito para a distância da pista e fechamos esse mesmo. Na minha lembrança, não era muito caro; mas também não era barato. A praia artificial nos convenceu – a gente não tinha tempo para nada, nem um mergulhinho, mas gostava desses pequenos luxos, para contar vantagem. Imaginem se fosse hoje, com redes sociais. A gente ia se exibir muito.

Eu e o Seixas nem sempre viajávamos nos mesmos voos. Sei que naquele ano chegamos em horários diferentes a Kuala Lumpur e fomos nos encontrar no hotel, que tinha uns bangalôs no térreo, com um pequeno quintal – a isso hoje chamam de “garden”. Ele chegou primeiro e tive de esperar do lado de fora, sentado ao lado de minha mala, enquanto o amigo não aparecia. Ou fazia alguma coisa lá dentro e eu não tinha reparado que já estava lá.
O café da manhã era espantoso no Mines Beach Resort. Malaios comem feijão, carne, frango, tudo muito apimentado e com curry, assim que acordam. Pegamos nosso Proton e fomos para Sepang nos baseando em mapas de papel e indicações de caminho fornecidas pelo pessoal do hotel. Não tínhamos GPS no carro, essas coisas custavam muito e não estavam disponíveis em qualquer lugar. Estamos falando de 1999, 27 anos atrás.
Na Malásia, a mão é inglesa. Dirige-se do lado direito do carro. Nunca tive grandes problemas com isso e o motorista era sempre eu, porque quem alugava o carro era minha rádio, e gosto de dirigir. E o Seixas guia muito mal. Mas é bom navegador. Formávamos uma boa dupla. No caminho, passamos por um pedágio e tenho a lembrança de ter feito uma bobagem que tivemos de resolver no improviso. Pegava-se um tíquete de papel numa máquina no acesso à estrada, e quando dela se saía era preciso pagar pelo trecho percorrido. Deixei o papel voar pela janela. Na cabine, expliquei que o papel zupt!, foi assim mesmo que falei: “My paper zupt!”. Tenho a memória de a moça ter achado aquilo engraçado, liberando nossa passagem.

(Vamos a uma breve explicação sobre o “zupt!” aí em cima. Era um bordão da turma da F-1 quando sumia alguma coisa. Bordão ancestral. Muitos anos antes, em Zeltweg, o querido amigo Jorge de Souza – narrador da Rádio Excelsior, depois Globo, que morreria em 2003 aos 75 anos – estava hospedado numa daquelas pensões muito simples e familiares da região.
O GP da Áustria acontecia, e acontece até hoje, numa área rural. Jorge, muito eclético, acompanhava vários esportes e frequentemente era escalado para transmitir corridas de F-1. Naqueles tempos se fazia jornalismo “in loco”, e não narrando as coisas pela TV, como hoje. Jorge tinha muitos talentos, e um deles era falar todas as línguas do mundo sem falar nenhuma. Tinha enorme capacidade de reproduzir fonemas, palavras e frases inteiras em qualquer idioma sem ter a mais remota ideia do que significavam. Assim, era capaz de se sentar com a dona da pensão na Áustria e ficar horas falando alemão com ela. Um não entendia o outro, mas tudo bem. Na Hungria, travava longos diálogos, em húngaro, com motoristas de táxi. No Japão, era capaz de discutir a qualidade do saquê e o frescor do salmão com o garçom de um pequeno restaurante. Em japonês fluente.
Uma vez, em Detroit, num jantar organizado pela Ford para jornalistas, Henry Ford II, o anfitrião, passou por todas as mesas para cumprimentar os convidados. Jorge, que já estava de pijama na hora da festa, foi convencido pelos amigos a ir ao evento. Foi, meio a contragosto. Dizem que nem tirou as calças do pijama. E levou sua inescapável bolsa de remédios, elixires, unguentos, pomadas, emplastros, bálsamos e xaropes que carregava para todos os lados nas viagens, preparada com esmero por sua esposa. Quando o herdeiro do império automobilístico chegou à mesa dos brasileiros, Jorge se levantou, abriu os braços e o saudou, eufórico: “Mr. Ford! Thank you Mr. Ford! My name is Jorge from Brazil! I love Ford! I have a Corcel Two!”. Mr. Ford abriu um largo sorriso, abraçou nosso amigo sem entender direito a que ele se referia, mas Jorge foi tão autêntico e genuíno que ganhou a simpatia instantânea do filho do fundador da Ford. Tanto que toda hora que passava pela mesa brasileira em seu périplo pelo salão, Mr. Ford se detinha e dizia: “George, my friend! Corcel Two!”. E o abraçava de novo. Não há informações precisas sobre a compreensão de Henry Ford II no que diz respeito ao Corcel II que Jorge tinha no Brasil. Mas viraram os melhores amigos da vida naquela noite.

Voltemos ao “zupt!” e à pensão na Áustria.
Aqueles pequenos albergues tinham banheiros externos aos quartos e suas cozinhas ficavam sempre à disposição dos hóspedes. Jorge, que se levantava de noite para fazer xixi com alguma frequência, comprara uma garrafa de Fanta laranja, que adorava, e deixara na geladeira para suas incursões noturnas. E avisou expressamente aos colegas que pernoitavam naquela estalagem que a Fanta era dele, e que ninguém ousasse beber daquela garrafa, porque custara caro e dinheiro não estava sobrando daquelas viagens. Não sei quem, provavelmente Galvão Bueno, que era sacana e adorava uma molecagem, sumiu com a Fanta de Jorge assim que ele foi se deitar. Batata. De madrugada, Jorge levantou para ir ao banheiro e na passagem pela cozinha, quando voltava ao quarto, resolveu tomar um gole de sua Fanta. Ao abrir a geladeira, a garrafa tinha sumido. Jorge, então, acordou o hotel inteiro. Onde está minha Fanta?, gritava. A dona da pensão acendeu as luzes, nervosa acorreu à cozinha para saber o que estava acontecendo, e Jorge foi assertivo nas explicações, num alemão incompreensível, mas muito claro. Ao final do discurso, diante da aquiescência de nossa hospedeira, elucidou o motivo único e exclusivo da crise que se instalara no alojamento: “My Fanta zupt!”. A partir daí, tudo que desaparecia entre nós passou a ser descrito como “my Fanta zupt!”.)
Naquele ano, 1999, o campeonato estava muito interessante. Michael Schumacher tinha quebrado a perna num acidente em Silverstone e caiu no colo de Eddie Irvine a chance de tirar a Ferrari da fila, que vinha desde 1979 com o título de Jody Scheckter. A briga era com Mika Hakkinen, da McLaren. Os dois saíram de Monza, na Itália, empatados com 60 pontos. Eram 16 etapas na temporada e faltavam três: Nürburgring, Sepang e Suzuka. Na Alemanha, Mika ficou em quinto e Eddie não pontuou, depois de uma barbeiragem inacreditável da Ferrari num pit stop – esqueceram os pneus. Na Malásia, Schumacher voltou, depois de seis corridas ausente. Guiou como nunca, ganharia a prova de forma soberba, mas entregou a vitória a Irvine no fim, para ajudar o companheiro a ser campeão. Hakkinen ficou em terceiro e o irlandês assumiu a liderança na tabela: 70 x 66. Vale lembrar que só os seis primeiros pontuavam, pela ordem: 10-6-4-3-2-1. No Japão, porém, Hakkinen venceu, com Schumacher em segundo e Irvine em terceiro. Eddie perdeu o campeonato por dois pontos. Se tivesse chegado em segundo seria derrotado da mesma forma, empatando nos pontos e perdendo no número de vitórias.

Por conta da decisão, não voltamos ao Brasil depois do GP da Malásia. A corrida aconteceu no dia 17 de outubro e a final de Suzuka seria no dia 31. Era mais barato ficar por aqueles lados do que gastar mais uma passagem. Fora a distância: bater em Sepang e voltar para casa para logo depois encarar a maratona de uma viagem para o Japão era cansativo demais. E enquanto quebrávamos a cabeça para decidir o que fazer entre uma corrida e outra, o empresário de Ricardo Zonta, Geraldo Rodrigues, nos ofereceu uma barbada irrecusável. A BAR, equipe do brasileiro, tinha reservado uns chalés no Club Med Cherating, ainda na Malásia, esse de praia, mesmo, com tudo incluído – comida, bebida e tudo mais. Não sei bem se tinham sobrado quartos ou era convite, mesmo, para jornalistas. Sei que pegamos um voo da Malaysia para uma cidade próxima cujo nome não lembro e ficamos uma semana de papo para o ar tomando sol e mergulhando no Mar da China. Só então seguimos para o Japão via Tailândia. Com uma escala de alguns dias em Bangkok, onde nos inscrevemos em programas de fidelidade de vários serviços, já que todo ano teríamos de passar por lá.
Vixe. O texto já se faz longo e nada disse dos treinos desta madrugada em Sepang. Já devo ter contado em algum momento que esse GP, o 16º do ano, é do Bahrein, e não da Malásia. É o GP do Bahrein na Malásia. A corrida original, no Bahrein, estava marcada para abril, mas foi cancelada porque o energúmeno cretino do Donald Trump declarou guerra ao Irã junto de seu títere israelense. Figuras abjetas. As autoridades barenitas e os promotores, então, alugaram Sepang para fazer sua corrida. Assim a Malásia voltou ao calendário, como locação de Airbnb na categoria autódromos. A última corrida lá tinha sido disputada em 2017. Dos 22 pilotos da F-1 atual, dez participaram daquela prova e um, Charles Leclerc, chegou a fazer um treino livre de Sauber.
Leclerc, a propósito, foi o mais rápido no segundo treino livre de hoje. Max Verstappen fez o melhor tempo no primeiro. Com uma volta melhor que a do monegasco na segunda sessão (os tempos estão aí embaixo).

Destaques e notícias, em ordem aleatória porque já escrevi demais:
- O asfalto muito abrasivo, já que a pista não passa por recapeamento faz muito tempo, funciona como uma lixa. As equipes estão prevendo pelo menos duas paradas para troca de pneus na corrida. Todo mundo economizou pneus duros hoje. A temperatura do asfalto bateu nos 60°C.
- Calor é sempre um problema para todos em Sepang. Hoje os termômetros oscilaram entre 34 e 36°C. Gabriel Bortoleto disse que as condições eram insanas. A umidade incomoda muito. Mas não choveu, como indicavam as previsões.
- A Mercedes está correndo com boa parte de seu carro pintada de verde-maravilha. Não sei se esse é o nome da cor, mas é a tonalidade usada pela Petronas, sua patrocinadora faz muito tempo. A Petronas é a estatal de energia da Malásia. Faz combustíveis e lubrificantes para a equipe. É uma empresa gigantesca, a Petrobras deles.

- A cor (Emerald Green, fui pesquisar) não é a única novidade do time, porém. Seus carros receberam um novo pacote aerodinâmico, as primeiras atualizações desde o GP do Canadá. Não deu para avaliar direito, porém, porque os pneus superaqueceram muito rapidamente, estragando o final das voltas.
- Pilotos punidos no grid antes da classificação: Franco Colapinto (15 posições, sendo cinco pelo acidente de Baku e dez por troca de componentes do motor), Arvid Lindblad (troca de motor, cai para o fim do grid) e Isack Hadjar (cinco posições por troca de componentes do motor).
- A Red Bull deve andar bem em Sepang. É mais candidata à vitória (com Verstappen) do que a Ferrari, que foi a mais rápida no segundo treino. Mas a Mercedes é favorita.
- No mercado de pilotos, a semana registrou duas notícias: Fernando Alonso renovou com a Aston Martin por mais um ano e seu companheiro segue sendo Lance Stroll. E a Haas oficializou a saída de Esteban Ocon no final da temporada. O francês vai ter dificuldade para seguir na F-1. Seu lugar será ocupado pelo brasileiro Rafael Câmara, que já fechou, mas ainda não anunciou. Ele chega com bons patrocínios, como da Petrobras, via Ministério do Esporte (viram, automobilistas, como o Estado ajuda?), e possivelmente do Bradesco. Rafa, pernambucano arretado, lidera a temporada de F-2 com boas chances de ser campeão. É uma vaga merecidíssima. “Nossa, não era para abrir o texto com essa notícia?”, perguntarão os patriotas. Era e não era. Todo mundo já sabe que Câmara será o piloto da Haas. Quando for feito o anúncio oficial, vários “produtores de conteúdo” dirão que deram a notícia antes. Não importa. A verdade é que ninguém viu o contrato assinado, ainda. E todos chutam o tempo todo. Eu afirmo hoje, e apenas hoje, porque tenho fontes boas em Brasília: fechou. Só que não tenho mais detalhes. Por isso deixei para o fim.
E não me encham.