
RIO (mas já não há) – Faltava Suzuka, não falta mais. Valeu a pena colocar o despertador para as 2h50, fazer um café e ver Hamilton. A volta que lhe deu a pole, a primeira no Japão, foi nada menos que extraordinária. Ele a chamou de “insana”.
Agora Lewis tem poles em todos os circuitos que fazem parte do calendário da F-1. São 71 no total. Já é um dos maiores pilotos da história, para responder a pergunta que tem-me sido feita de vez em quando em redes sociais. Um dos 5? Sim, um dos 5. Quais são os outros? Ah, depois respondo.
Por ora, vale o privilégio de ver alguém como esse cara guiando com tanto talento. Com a cabeça boa, relaxado, e um carro excepcional, fica muito difícil batê-lo. Hamilton colocou 0s472 em Vettel, que vai largar em segundo — Bottas ficou um pouco mais perto no cronômetro, mas como foi punido por troca de câmbio, caiu para sexto.
[bannergoogle]Há um dado interessante aí, abrindo um pequeno parêntese. Muita gente se lembra da pole de Ayrton Senna em Suzuka, em 1988. Um ano emblemático, o ano de seu primeiro título. Deve haver algum vídeo de sua volta na classificação, brigando com o carro, trocando as marchas na alavanca, uma coisa verdadeiramente insana, para usar termo que Hamilton adora. Seu tempo naquele dia: 1min41s853. Lewis fez sua pole mágica hoje em 1min27s319. A diferença foi de 14s534. Na mesma pista, traçado praticamente idêntico, igualmente no seco. Quase quinze segundos, escrevo por extenso para não deixar dúvidas, quinze segundos. Putaquelamerda.
Voltando. Hamilton foi a grande estrela do dia, claro, com mais um tijolinho na construção que o levará ao quarto título mundial — isso só não acontece se Vettel fizer algum milagre, e eles não andam muito em voga desde os tempos em que se caminhava sobre as águas, ou fazia-se de um pedaço de pão uma farta peixada para alimentar a galera, acompanhada de bom vinho.
O treino de classificação, ao contrário do que indica o infeliz título escolhido para a série de notas sobre o GP do Japão deste ano, não teve uma gota de chuva. Teve, sim, uma pancada que o interrompeu no Q1, de Grosjean na sequência de “S” que, com esses carros de 2017, deve ser divertidíssima de fazer. Menos quando bate, claro.

Ao final, alguns pilotos tinham motivos para comemorar o bom trabalho, como a dupla da Red Bull que parte na segunda fila, os meninos da Force India, os melhores dos “outros”, Massa, Vandoorne… Esses todos, claro, ali no entorno de Hamilton e Vettel entre os dez primeiros. Houve punições a granel mais uma vez. Além de Bottas, Raikkonen também perdeu cinco posições no grid por troca de câmbio, depois de uma batida forte no último treino livre. Alonso (na foto, com Takuma Sato, com quem disputou a Indy 500 em maio), Palmer e Sainz Jr. trocaram componentes do motor e foram lá para a rabeira.
E a menção aos dois últimos nos leva à última informação do dia. Depois da classificação, a Renault anunciou que Palmer não disputará as últimas quatro provas do campeonato. Será substituído pelo jovem espanhol, liberado pela Toro Rosso alguns meses antes do previsto. Como se sabe, Carlos será titular do time francês no ano que vem, ao lado de Hülkenberg. Já começará, portanto, a conhecer a equipe por dentro em Austin, no GP dos EUA. Com isso, o russo Daniil Kvyat, que eu equivocadamente achei que iria sumir de cena, já volta à filial da Red Bull, ao lado de Gasly, em Austin.
Fiquei com dó de Palmer ao ver sua postagem no Instagram. Mas, sendo bem franco, até que durou bastante. É um piloto muito fraco. Esse, sim, vai sumir de cena.

Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.