A primeira parte da temporada de estreia da Audi na Fórmula 1 oferece interessante olhar sobre o passo a passo de um projeto que almeja um patamar mais alto na principal categoria do automobilismo mundial. Claro que não poderia ser diferente, afinal não se trata de qualquer marca, e sim de uma das mais tradicionais do esporte a motor, com campanhas de sucesso do endurance ao rali, portanto a última coisa que veríamos seria uma aventura sem eira nem beira. E são justamente os passos firmes, ainda que cambaleantes, que deixam a boa impressão de que há muito mais por vir — talvez ainda em 2026.

Agora, a questão aqui não é nem afirmar que não será fácil, e sim que vai levar tempo, só que os alemães parecem muito conscientes do trajeto que têm pela frente se analisarmos cada uma das fases de atualizações previstas. O maior problema da primeira metade de 2026 foi a falta de confiabilidade, algo que também já estava no radar, considerando não apenas a empreitada inaugural na F1, como também a profunda mudança técnica pela qual a categoria passou.

Esse aqui, aliás, é um dos pontos mais interessantes, pois o lado positivo é que a Audi não está sozinha nesse barco. Até mesmo a todo-poderosa Mercedes, que venceu oito das 11 corridas realizadas, já ficou várias vezes pelo meio do caminho com um dos carros pela falta de confiabilidade. Não há, portanto, culpa que possa ser aplicada ao noviciado pelas falhas que ainda se apresentam na unidade de potência, mas a Audi também parece ter nas mãos o controle de quanto será a hora de fazê-la render o esperado.

É que os alemães foram um dos beneficiados pelo ADUO, que são as permissões para que montadoras com déficit de potência comprovado façam atualizações no motor. No caso da Audi, são mais de 4% de desvantagem para o Red Bull Ford, que lidera o ranking, dando a ela a chance de promover duas mudanças este ano e duas em 2027. Só que o foco definitivamente não é a evolução a curto prazo, tanto que a equipe pretende trabalhar somente no desenvolvimento aerodinâmico depois das férias, guardando as mexidas na unidade de potência para o ano que vem.

Allan McNish explicou a razão disso em entrevista na Hungria. “Do nosso ponto de vista, com a Audi, já introduzimos algo em Barcelona — um pequeno ajuste que funcionou bem e nos ajudou no processo. Mas diria que os componentes principais chegarão em 2027. Portanto, não esperaria ver — ou melhor, não veremos — nada significativo em relação à unidade de potência até lá.”

“A atualização nos ajudou muito, especialmente nas curvas de baixa velocidade, onde éramos um pouco mais fracos. Também fizemos alguns ajustes e conseguimos, diria, melhorar a dirigibilidade. Mais uma vez, tudo se resume a características relacionadas às curvas lentas, e é isso que importa nessas situações”, continuou McNish.

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Gabriel Bortoleto cresceu em pilotagem e apresenta ótima leitura de corrida (Foto: Audi)

A Audi, de fato, conseguiu finalmente romper a insistente barreira da 11ª colocação ao longo da perna europeia. Depois do GP de Barcelona-Catalunha, pontuou em três das quatro corridas realizadas, sendo dois oitavos lugares com Gabriel Bortoleto e um nono com Nico Hülkenberg — os primeiros pontos do veterano alemão que mesmo com resultados mais discretos, é peça crucial na engrenagem da Audi rumo à ‘F1 A’.

Bortoleto, por sua vez, representa a juventude, porém já traz para o time um olhar muito apurado na leitura de corrida, mostrando nas entrevistas que sabe exatamente o que precisa fazer para que o top-10 nas corridas seja uma constante ao longo dos finais de semana. No começo do ano, o brasileiro sofreu um bocado com o sistema de largada do R26, que até então passou a ser um ponto crítico para a Audi aos domingos. Os ajustes feitos ainda não solucionaram totalmente a questão, mas o robusto pacote levado para a Áustria já proporcionou inícios mais regulares, tanto que os pontos vieram na etapas seguintes.

“Estamos à frente da Alpine, com certeza. Mas, quando estamos disputando posição com eles, não conseguimos ultrapassar no miolo das curvas, porque isso é impossível. E, nas retas, eles conseguem abrir vantagem. Então, a menos que consigamos ficar à frente deles e construir uma diferença, é muito difícil correr contra eles em uma pista como esta [Spa-Francorchamps]. Em circuitos com menos retas, a situação fica um pouco mais favorável para nós. Diria que, por enquanto, a Racing Bulls ainda está um pequeno passo à nossa frente, mas estamos diminuindo essa diferença. Estamos chegando mais perto e também vamos para circuitos onde nossas fraquezas pesam menos”, disse Gabriel na ocasião do GP da Bélgica.

“Ainda estamos em desvantagem por causa do motor, mas isso é algo que já sabemos. Já conversamos sobre esse assunto e não acho que haja necessidade de ficar falando disso o tempo todo. Está claro, todo mundo consegue ver. Mas tenho certeza de que a equipe está fazendo um grande trabalho para trazer mais desempenho ao motor ou, pelo menos, preparando o caminho para termos um motor melhor no futuro. Sempre que vou à fábrica, vejo que eles estão trabalhando muito bem nesse sentido”, completou.

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Nico Hülkenberg é peça fundamental na engrenagem da Audi em ambicioso projeto (Foto: Audi)

Bortoleto tem muita razão ao citar a importância do traçado para proporcionar à Audi chance de superar as rivais diretas no meio do pelotão. De fato, a Racing Bulls é quem lidera, uma vez que a Alpine depende muito do motor para prevalecer na disputa. Mas a segunda metade da temporada trará mais pistas seletivas, como Singapura, o novo traçado de rua de Madri, México, Interlagos… A atenção, todavia, terá de ser redobrada em Baku, com a longa reta de 2 km, e Monza, de altíssima velocidade, isso sem contar com a adição de Sepang, na Malásia, para acomodar o GP do Bahrein, mas é possível dizer que o saldo tende a ser muito favorável para a Audi encerrar 2026 ainda mais confiante de que está no caminho certo.

O único senão, portanto, é mesmo a confiabilidade, que ainda atrapalha a equipe de terminar as corridas sem que um dos carros apresente algum problema. Só que isso também é parte necessária do ambicioso projeto que coloca 2030 como meta para brigar não apenas por vitórias, mas pelo título. Ousado, claro, mas a fábula que conta a história de uma tartaruga que venceu a lebre em uma corrida mostra bem que é devagar que se vai ao longe.

A Fórmula 1 está de férias. A categoria retoma as atividades da temporada 2026 de 21 a 23 de agosto, com o GP dos Países Baixos, em Zandvoort.