“Estamos passando por uma montanha-russa na F1, de emoções e outras coisas,” me disse Carlos Sainz às vésperas do final de semana do GP da Bélgica. Sim, eles estão. As equipes também. E nós, os observadores externos, herdamos algumas dessas emoções dos pilotos e equipes, cada um à sua maneira.

Imagine, como um fã devoto de F1, que você precise escolher um momento do esporte que te trouxe as mais fortes emoções. Muitos provavelmente escolheriam a volta final do GP de Abu Dhabi de 2021 — ou algo assim: um momento específico e provavelmente impactante de ação na pista. E sim, para mim também, esses momentos em Abu Dhabi estão bem no topo da minha lista pessoal de emoções com a F1. Eu estava literalmente gritando durante a volta inteira, como várias outras pessoas.

Mas logo em seguida, do segundo lugar em diante na minha lista, está a oportunidade de ver as emoções dos pilotos de perto depois das sessões de classificação e corridas.

Neste artigo, vou comentar como a maior parte dos atuais pilotos geralmente se comporta em entrevistas — e como as atitudes deles mudam quando o resultado de repente se torna significativo, seja positivamente, ou, com maior frequência, negativamente.

Charles Leclerc é conhecido pelas expressões tristes na F1 (Foto: Gabriel López/Grande Prêmio)

Aliás, parece inerente à natureza do esporte que os pilotos sintam emoções negativas com mais recorrência do que positivas. Para ilustrar, vamos fazer um exercício simples: em cada sessão de classificação, os cinco pilotos mais lentos são eliminados após o Q1, e para eles cinco, de forma geral, a experiência é, claramente, fortemente negativa. Enquanto isso, aqueles que chegam ao Q3 não necessariamente sentem euforia. Por exemplo, Liam Lawson ocasionalmente se garante no top-10, mas mantém mais ou menos a mesma atitude — meio emburrado e bem direto. Esse desequilíbrio entre o desapontado e o contente só aumenta enquanto o final de semana se desenrola.

Já que eu trouxe o Liam, também vou mencionar o Isack Hadjar: ele parece irritado quando falta velocidade e, quando a tem, apenas ocasionalmente se permite um sorriso. Dito isso, Hadjar demonstrou um crescimento emocional significativo desde os tempos de F2. Talvez as frequentes mensagens de rádio de Yuki Tsunoda em 2024 convenceram Helmut Marko a não mais permitir nada parecido — e ele passou isso para Isack. Também é de se notar que Isack teve menos razões para sorrir durante a etapa europeia da temporada: ele e seu carro ainda parecem fortes às vezes, mas não tanto quanto estavam durante a primavera.

Sainz é o personagem daqueles memes em que ele parece meio perdido — ele mesmo até fez piada sobre isso em vários podcasts. Nas entrevistas ele parece tão confuso e desapontado como nos memes. Ele também está claramente insatisfeito com a FIA e tem mencionado isso com mais frequência que os demais ultimamente. Após um período de incertezas e esperança, o pai dele não se candidatou à presidência da FIA — o piloto da Williams teria preferido um desfecho diferente, de acordo com ele próprio. Além disso, Carlos passou por um ano muito difícil em 2024, e o carro da Williams que ele conseguiu claramente não entrega a velocidade que ele gostaria. Mesmo assim, ele me disse nessa mesma coletiva de imprensa que ainda ama a F1 e não está frustrado com o esporte. Então associei sua aparente insatisfação nas entrevistas à atitude como nos memes. Nós amamos o Carlos por ser esse tipo de personagem, né?

Oliver Bearman tende a ser mais animado, mesmo quando os resultados o desapontam. Ele gosta de descrever em detalhes como o carro responde na pista, às vezes pode até acrescentar uma história — bem alto-astral.

Gabriel Bortoleto passa sinceridade nas entrevistas na F1 (Foto: Gabriel López/Grande Prêmio)

Gabriel Bortoleto não é tão falante quanto Ollie, mas parece aberto a conversar, e suas respostas claramente não são ensaiadas. Se ele não sabe alguma coisa, ele só diz: “Cara, não tive tempo de ver isso ainda, vim para cá direto da pista” (não é uma citação direta, mas bem próxima) — tudo isso sem mostrar nenhuma frustração quanto à atenção da imprensa. Conversei com o Gabriel logo após duas das ocasiões em que ele marcou pontos na temporada — em Spielberg e em Spa —, e não diria que ele estava muito mais alegre que o normal — talvez um pouco. Como você sabe, ele teve grande atitude com Nico Hülkenberg quando Nico conquistou o primeiro pódio dele. Esperamos que os momentos de grande felicidade de Gabi — e oportunidades de mostrar mais emoção — ainda estejam por vir.

Nico, por sua vez, estava feliz — mas uma felicidade silenciosa — após esse pódio da Inglaterra. Ele obviamente gritou e dançou com a equipe mais tarde, debaixo do champanhe recebido de generosas equipes vizinhas, mas no geral ele manteve a compostura. Nico é mais velho que os outros pilotos mencionados, e é difícil imaginá-lo pulando de emoção. Aliás, talvez ele veja como sua maior conquista possível uma vitória futura com a Audi — veremos se o piloto alemão vai alcançar esse objetivo.

Gostaria de falar sobre Franco Colapinto em conexão com Kimi Antonelli. O piloto argentino está claramente na mais precária posição do grid atual — as cinco corridas mencionadas por Flavio Briatore já passaram, então Franco teoricamente pode perder seu posto a qualquer momento. Kimi também está sob ameaça, mas o risco é mais no médio prazo: muitas coisas precisariam acontecer dentro da sua equipe e da Red Bull para seu posto realmente ser comprometido. Só se Max Verstappen decidir ir para a Mercedes em 2027, e apenas se Toto Wolff assumir o risco de colocar Max e George Russell na mesma equipe, Antonelli estaria fora — e ainda assim, como dizem as pessoas no paddock, ele não deixaria a F1 por completo. Então, no geral, Kimi está em uma posição muito melhor comparada à de Franco — mas, mentalmente, está na situação oposta: muito mais desprotegido.

Colapinto geralmente é calmo, mesmo considerando que os grandes resultados não chegam. Ao responder perguntas difíceis após sessões ruins, ele mantém a compostura — o que é nada menos que impressionante. Dizem que a pressão na F1 é imensa, e seu futuro depende parcialmente da sua capacidade de lidar com ela. Nesse sentido, de forma contraintuitiva e apesar da atual situação contratual, Franco demonstra estar plenamente preparado. Enquanto isso, Kimi parecia cada vez mais triste ao longo da temporada na Europa — e, nas suas próprias palavras ditas a nós, “menos confiante.” Isso poderia levar a desfechos envolvendo Max e George que não favoreceriam Antonelli. Falta de confiança não é algo que Toto quer ver em seu piloto. A ver como reage depois do pontinho marcado na Hungria.

Kimi Antonelli não estava alegre nas últimas corridas (Foto: Gabriel López/Grande Prêmio)

Russell é um caso completamente diferente — assim como seus resultados. Às vezes ele age como seu próprio assessor de imprensa: sabe exatamente o momento de encerrar uma entrevista, sem precisar de nenhuma deixa. Confiante, determinado — assim é o George.

As interações de Lance Stroll com jornalistas e sua motivação são outra história. Fernando Alonso, com toda experiência, hoje é ainda mais tranquilo que Nico, um pouco incomodado com o carro, mas de jeito nenhum consigo mesmo. Nada mais a acrescentar aqui.

Antes de subirmos no grid, queria rapidamente falar sobre o homem que não é um piloto de F1 (ainda): Victor Martins. Como você pode ver, felicidade pura é rara entre pessoas que correm na F1 em tempo integral. Mas ela podia ser facilmente encontrada nos olhos do jovem Victor após a estreia no TL1 do GP da Espanha deste ano. Durante a entrevista da qual participei após a sessão, ele estava sorrindo o tempo inteiro e até ficou lisonjeado pela atenção da imprensa — algo que ele nunca tinha experimentado antes. Isso mostra quão preciosa é a F1 para esses homens. Mas vamos voltar para a escalação principal.

Aí chegamos à Ferrari, Red Bull, e McLaren. Enquanto Carlos dos memes parece perdido, Charles Leclerc geralmente é retratado como triste. Não há fumaça sem fogo, mas a única vez em 2025 em que ele estava verdadeiramente chateado durante entrevistas que estive foi após a classificação em Monaco, quando ficou claro que ele havia vacilado na sua chance, possivelmente única, de vitória nessa temporada — não estive na Hungria, diga-se. Do contrário, Charles também é calmo, raramente demonstrando emoções fortes.

Max Verstappen parece calcular tudo na F1 (Foto: Red Bull Content Pool)

Os jornalistas conseguem ver como Yuki Tsunoda lida com a pressão. Assim como Isack, ele mudou bastante após 2024 — amadureceu, e não fala irritado no rádio com tanta frequência. Ainda assim, o fardo sobre seus ombros pesou em Silverstone. Ele falava mais silenciosamente que o normal e estava claramente desapontado com o resultado — mas visivelmente se recuperou em Spa. Mentalmente, Yuki ainda tem bastante poder de fogo, ainda que os boatos sobre seu contrato expirar no fim de 2025 sejam verdadeiros. A situação dele, de certa forma, reflete a de Franco.

Lando Norris é um caso interessante. Ele sorri bastante independentemente da situação — boa ou ruim — mascarando sua posição. Quando as coisas não vão bem, ele sorri como se estivesse pedindo desculpas aos fãs. Quando o resultado é positivo, é claro, também vemos um sorriso.

Oscar Piastri é, sem nenhuma intenção de ofender, o tipo de cara que tem a chamada ‘poker-face’. Um leve sorriso após uma vitória, um leve — pelo menos olhando de fora — desapontamento após uma perda ou um erro, como em Silverstone. Tudo isso mostra que ele também está bem protegido mentalmente, o que lhe beneficia — escrevi sobre isso em um dos meus artigos anteriores.

Max pode dizer coisas engraçadas que viram notícia. Você provavelmente se lembra de um exemplo notável na Espanha: após ser atingido pelo piloto da Red Bull, Russell expressou que isso é um mau exemplo para a nova geração. Quando citei a frase para Max, ele deu a célebre resposta: “Vou trazer uns lenços da próxima vez.” Mas em quase todas as outras situações, Max não só é calmo, como também calculado. Ele sabe que cada palavra que diz será interpretada por centenas de veículos de imprensa no mundo inteiro — foi especialmente assim durante o período de incerteza contratual. É por isso que você dificilmente vai ouvir algo impensado por parte dele, e ele mantém a compostura mesmo após contratempos na pista. Seja por sua velocidade ou força mental, o neerlandês parece quase perfeito. Mesmo quando ele falou sobre os lenços, estava bem calmo.

Lewis Hamilton vive temporada duríssima com a Ferrari (Foto: Ferrari)

No início do artigo, falei sobre os momentos mais impactantes na F1 para mim. No top-3 está o momento em que vi Lewis Hamilton após o GP da Espanha.

Você se lembra de como ele pediu desculpas à jornalista Rachel Brookes por suas respostas curtas? Confie em mim, a sessão com a imprensa escrita foi ainda mais pra baixo. “Algo positivo sobre o fim de semana?” — (um muito silencioso) “Não.” “Algo positivo sobre a rodada tripla?” — igual. Depois de cerca de cinco perguntas, nós paramos de perguntar porque tinha ficado claro: ele não vai falar muito de toda forma. Ao mesmo tempo, ele não deixou a coletiva, aparentemente honrando seu dever de falar a nós jornalistas. Eu estava lá em silêncio, o lendário campeão mundial por sete vezes a dois metros na minha frente, a voz de uma geração, ídolo de milhões — sem ter um carro que lhe servisse, mesmo após uma ousada mudança de equipe, lidando com o resultado infeliz daquela decisão. A magnitude daquele momento foi enorme para mim.

E então Lewis saiu, declarando seu destino: “Vou para casa.”

Em um dos reels do Instagram do GRANDE PRÊMIO, eu disse que a F1 é, principalmente, sobre emoções. Alguns comentários foram céticos. Mas mantenho o que eu disse: o principal motor da F1 não é aquele debaixo da carroceria cromada da McLaren — mas aquele encapsulado no suor e nas lágrimas desses atletas.

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