“Fomos bem, mas não estamos buscando a melhor sexta-feira, queremos, sim, o melhor domingo”. A frase de Frédéric Vasseur não só resume bem o clima da Ferrari após a liderança nos treinos livres na Hungria, como destaca um dos pontos fortes dos italianos na F1 2026: a preparação afinada para um fim de semana. E desta vez, a escuderia parece ter encontrado tudo que é necessário para bater a Mercedes em pé de igualdade. É fato que a SF-26 se dá melhor em circuitos como esse de Budapeste, mas é fundamental dizer: as atualizações se encaixaram como uma luva e pavimentaram um caminho mais fácil para Charles Leclerc e Lewis Hamilton, que comandaram a primeira e a segunda sessões respectivamente. O problema é que a equipe vermelha ainda precisa anular outros elementos deste cenário, para voltar a vencer.
De toda a forma, é possível dizer que a Ferrari viveu um dia bem menos turbulento. A configuração geral do carro pareceu natural no Hungaroring, o que permitiu aos engenheiros explorarem outros aspectos, como a eficiência da asa traseira revisada e o comportamento dos pneus em um traçado ainda muito sujo e de pouca aderência. O carro também se mostrou muito veloz nas curvas de baixa velocidade, praticamente neutralizando os rivais. O único momento de preocupação foi a falha que interrompeu o trabalho de Leclerc nos minutos derradeiros do TL1 — embora não tenha falado a respeito, o time não se intimidou pelo contratempo, rapidamente resolvido. Também impressionou a facilidade com que a dupla ferrarista conduziu as simulações de classificação nesta sexta-feira (24).
Calçados com os pneus macios (C5), Hamilton e Leclerc não enfrentaram qualquer problema para alcançar a ponta da tabela — sendo que o heptacampeão foi capaz de melhorar a marca em uma segunda tentativa, aproveitando bem a janela de temperatura dos pneus. Enquanto a concorrência se viu às voltas com superaquecimento dos compostos e uma certa irregularidade com as curvas finais da pista magiar, os carros vermelhos pareceram bem mais confortáveis. Em termos de ritmo de corrida, a performance também é competitiva. O monegasco foi quem ficou responsável pelo trabalho de andar em condições de prova e, em cima dos pneus vermelhos, andou consistentemente melhor que a concorrência.
“Hoje correu tudo muito bem: o acerto do carro está no ponto e as atualizações estão funcionando. Mas ainda estamos longe da classificação. Isso significa que precisamos continuar refinando o carro, extrair desempenho em todos os setores e fazer um trabalho ainda melhor. Até aqui, porém, está tudo indo bem”, disse Vasseur.
De fato, é uma grande chance que se abre para a Ferrari, que vem de resultados fortes, mas que ainda não foi capaz de encarar de frente a Mercedes. Na Hungria, isso já parece real, tanto pela forma quase natural que o carro vermelho se adaptou às exigências do circuito — o downforce e o equilíbrio são o segredo — quanto pelo trabalho de preparação, pensando nos pontos do domingo. A revisão das asa Macarena é o maior exemplo disso.
Mas também é preciso colocar na balança que nem tudo é o que parece. Até porque a Mercedes viveu um dia dos mais estranhos do ano na Hungria. Não é uma questão de adaptação ou não ao traçado, mas a verdade é que a esquadra alemã se viu em apuros. Afinal, tomar 1s do líder da tabela não é comum. George Russell ficou apenas em quinto, enquanto Andrea Kimi Antonelli terminou em 13º, quase 2s atrás — importante destacar que o italiano não participou do primeiro treino do dia e, também, acabou não fazendo a simulação de classificação, por conta da bandeira vermelha e de um erro na segunda tentativa.

Russell, como outros pilotos, chamou a atenção para a qualidade do asfalto. Como parte das reformas no autódromo húngaro, o piso foi recapeado em alguns trechos, e isso também foi alvo de críticas, porque tornou o acerto mais complexo, em uma tendência de endurecer os sistemas de suspensão. “Acho que foi um dia bem estranho para todos. Budapeste é uma pista fantástica para pilotar, mas eles recapearam metade do circuito: está super irregular e em vários lugares, principalmente nas curvas finais, o asfalto está se desfazendo, o que torna a pilotagem bem estranha”, relatou George.
Ainda assim, a Mercedes enfrentou problemas de aderência e equilíbrio. O funcionamento dos pneus foi o maior desafio, exatamente no ponto que parece mais natural para a Ferrari. Ou seja, encontrar a janela ideal. No caso das Flechas de Prata, o superaquecimento durante a parte final da volta única é uma grande dor de cabeça. “Não conseguimos colocar os pneus na janela ideal de temperatura para a volta lançada. Por outro lado, nos stints longos, o carro pareceu bastante consistente e competitivo em relação à Ferrari, [Max] Verstappen e McLaren. Isso indica que precisamos fazer um trabalho melhor nas voltas rápidas”, afirmou o vice-chefe da Mercedes, Bradley Lord.
Realmente, Antonelli é quem aparece mais perto da Ferrari, especialmente com pneus macios. A diferença de ritmo está em 0s1 apenas. Então, a tendência é uma batalha dura, se a Mercedes for capaz de contornar os problemas em classificação. Quem pode interferir nisso é a Red Bull. Embora Max Verstappen tenha ficado a quase 0s7 de Hamilton, o neerlandês também mostrou força em desempenho de corrida, com uma diferença de 0s2. Mas há um adendo aqui: o tetracampeão também conduziu um segundo ensaio, mas com os pneus médios, sendo o mais rápido nesse cenário.
O quarto elemento dessa disputa é a McLaren. Mas a performance em volta única não acompanhou a simulação de corrida, em que os papaias perdem muito para as três primeiras, apesar de todas as atualizações. Aqui, parece que a equipe laranja terá um pouco mais trabalho.

Para o sábado, será importantíssimo entender o comportamento dos pneus, como explicou o engenheiro da Pirelli, Simone Berra. “Em geral, proteger o eixo traseiro é crucial neste circuito, enquanto se gerencia um nível inevitável de degradação dos pneus dianteiros, que, no entanto, deve diminuir à medida que a pista continuar a evoluir ao longo do fim de semana. Mas agora atenção se volta para a fase inicial da classificação amanhã, onde não será fácil para os pilotos identificar a janela ideal tanto para a volta de preparação quanto para a volta rápida em um circuito tão curto.”
Mas se a Ferrari quiser dominar o domingo, como disse Vasseur, o primeiro passo será anular as rivais em um terreno que já parece conhecer melhor.
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