Epopeia de Di Grassi, aflição de Evans: quem sai em alta e em baixa do eP de Xangai
Da histórica e surpreendente vitória de Lucas Di Grassi à perda da liderança do campeonato por parte de Mitch Evans, o GRANDE PRÊMIO separou quem se destacou positiva e negativamente na rodada dupla da Fórmula E em Xangai
A rodada dupla do eP de Xangai entregou muito mais do que duas corridas movimentadas, cada uma ao seu estilo. A Fórmula E viu Pascal Wehrlein, que venceu a prova de sábado, ganhar força na briga pelo título e Lucas Di Grassi escrever um capítulo memorável na história da categoria com o triunfo de domingo em um fim de semana com desdobramentos importantes para a reta final do campeonato.
As condições climáticas instáveis tiveram papel fundamental nesse cenário. A chuva transformou o traçado chinês em um verdadeiro quebra-cabeça, premiando quem soube interpretar melhor a evolução da pista e punindo quem apostou no caminho errado. Em um campeonato em que os detalhes costumam fazer a diferença, Xangai elevou essa máxima ao extremo.
O resultado foi um fim de semana de contrastes. Enquanto alguns aproveitaram o momento para consolidar a boa fase, recuperar terreno ou reforçar suas credenciais na disputa pelos títulos, outros deixaram a China com a sensação de oportunidade desperdiçada, seja por problemas técnicos, decisões equivocadas ou simplesmente pela falta de ritmo diante dos adversários.
Com apenas quatro corridas restantes para o encerramento da era Gen3, cada ponto passa a ter peso ainda maior. E, depois do que aconteceu em Xangai, ficou mais claro quem chega fortalecido para a reta decisiva da temporada e quem precisará reagir rapidamente para manter vivas as próprias ambições.
O GRANDE PRÊMIO analisa quem sai em alta e quem deixa a China em baixa após mais um capítulo decisivo da temporada 2025/26 da Fórmula E.

Quem deixa o eP de Xangai em alta
Lucas Di Grassi
Difícil encontrar palavras para descrever o tamanho do que fez Lucas Di Grassi. Essa não foi apenas uma vitória vindo do fundo do pelotão — feito menos anormal na Fórmula E que em outras categorias, ainda mais em corridas de pelotão. Esse é um raríssimo triunfo em que é possível dizer que o piloto carregou o carro, subvertendo completamente a lógica do esporte a motor. Claro que é possível arrancar no braço um resultado acima das expectativas, mas subir ao degrau mais alto do pódio tendo o pior equipamento do grid — status reconhecido por todos, inclusive pela própria Lola Yamaha — em um campeonato tão equilibrado e com tantos candidatos à vitória prova a prova é uma conquista hercúlea, de se aplaudir de pé.
A vitória começou ainda na classificação. Não por conseguir boa posição no grid, mas pela percepção de que a pista secava rapidamente quando parava de chover. Minutos antes da largada, partiu de Di Grassi a ousada decisão de apostar em um acerto de pista seca mesmo quando tudo apontava na direção contrária. E, durante a corrida, ele mostrou que um campeão não desaprende a guiar: gerenciou muito bem energia, começou a andar mais rápido que todos quando o trilho seco começou a se formar e, na hora certa, acionou o Modo Ataque duas vezes para engolir os rivais e garantir um dos triunfos mais improváveis da história da categoria. Um resultado apoteótico para fechar com chave de ouro a carreira de um dos nomes mais importantes da Fórmula E.
Felipe Drugovich
Xangai foi mais um fim de semana de muito destaque para Felipe Drugovich. No sábado, não avançou aos duelos na classificação, mas fez uma ótima corrida, terminou no 4º lugar e só não subiu ao pódio mais uma vez porque tinha pela frente Jake Dennis e, diante da briga do companheiro pelo título, foi instruído pelo rádio a manter posição — mas tinha ritmo mais que suficiente para, em condições normais, fazer a ultrapassagem. No domingo, se agigantou diante do favoritismo de Pascal Wehrlein e Taylor Barnard, desbancou ambos e conquistou a primeira pole-position na Fórmula E. A corrida não saiu da melhor forma, já que o acerto para pista molhada foi totalmente comprometido quando o traçado secou. Ainda assim, ficou em 6º e chegou à sexta corrida seguida nos pontos.
Como analisou anteriormente JP Nascimento, Drugovich vem sendo o que a Andretti sempre quis na Fórmula E. Quando Dennis consegue apresentar o forte ritmo que todos estão acostumados, o brasileiro consegue acompanhar de perto. E quando algo atrapalha a vida do britânico, Felipe já mostrou ser capaz de segurar um bom resultado — como aconteceu no domingo, já que Jake foi apenas 13º. Graças a isso, a esquadra estadunidense deixou Xangai no 3º lugar do Mundial de Equipes e com a certeza de que, após anos buscando, finalmente encontrou outro piloto capaz de sustentar as ambições de bater de frente com as principais marcas da categoria elétrica.

Pascal Wehrlein
Jamais descartem Wehrlein da equação na Fórmula E. Após um retrospecto de quatro provas sem pontuar nas cinco anteriores, o alemão chegou a Xangai precisando dar uma resposta e mostrar que não seria carta fora do baralho na briga pelo título. E justamente no momento de maior pressão na temporada até aqui, ele mostrou que é um diamante.
No sábado, foi simplesmente intocável: conquistou a pole-position com um passeio na classificação e não perdeu o controle da corrida 1 em nenhum momento no caminho para a vitória. No domingo, largou da segunda fila e esteve em posição de brigar pela vitória com Joel Eriksson até a pista secar e ser superado por Di Grassi e Jean-Éric Vergne. Ainda assim, ficou em 4º, posição que foi suficiente para — somada à ausência de Mitch Evans da prova — recolocá-lo na liderança do Mundial de Pilotos.
Envision
Desde que levou o Mundial de Equipes na primeira temporada da era Gen3, a Envision vem caindo ano após ano na tabela. Apesar da latente dificuldade em bater de frente com times de fábrica, a formação britânica vinha deixando a desejar até diante de outras clientes. O desempenho deste campeonato já vinha sendo superior à campanha anterior, mas o fim de semana em Xangai consolidou essa recuperação.
Eriksson teve o melhor fim de semana na Fórmula E até aqui, terminando em 7º no sábado e em 3º no domingo — conquistando o primeiro pódio na categoria. Sébastien Buemi não pontuou na primeira corrida, mas foi 5º na segunda. Os resultados foram suficientes para colocar a Envision à frente da Nissan na tabela de Equipes, uma campanha que mostra que o time britânico ainda pode ser uma das forças do campeonato.

Quem deixa o eP de Xangai em baixa
Mitch Evans
Existem dois lados da moeda ao analisar o fim de semana de Evans em Xangai. Por um prisma, o neozelandês deu sorte de perder apenas uma posição no Mundial de Pilotos; por outro, é sempre preocupante quando um piloto não consegue sequer ir à pista diante de um problema técnico da equipe. Mas a verdade é que Evans não conseguiu ser competitivo em ritmo de corrida em nenhum momento. Mesmo largando na primeira fila no sábado, cruzou a linha de chegada apenas em 8º. No domingo, já não tinha ido bem na classificação e, diante da falta de competitividade da Jaguar com António Félix da Costa, é difícil imaginar que teria conseguido grandes coisas também.
No frigir dos ovos, o neozelandês deixou a China apenas com ferimentos leves. Mas é impossível não pesar a avaliação em um fim de semana que começou com tudo para ampliar a vantagem na liderança do campeonato e terminou sem sequer estar na ponta.
Edoardo Mortara
Quem deixou o fim de semana em situação mais complicada na luta pelo título foi Edoardo Mortara. Após abandonar em Sanya, o suíço terminou as duas provas de Xangai zerado. No sábado, até cruzou a linha de chegada em 10º mas foi punido por causar uma colisão com Vergne e caiu para 15º. No domingo, não teve rimo para brigar na frente e ainda quase jogou Buemi na barreira de pneus na entrada do pit-lane com uma fechada acima do tom.
Mortara era um dos que podia assumir a liderança do campeonato até mesmo após a primeira corrida, mas terminou o fim de semana apenas no 6º lugar do Mundial de Pilotos, 38 pontos atrás de Wehrlein. Com quatro provas para o término do campeonato, ainda não dá para descartá-lo da briga, mas certamente se tornou muito mais difícil imaginar uma conquista diante de uma sequência tão negativa na reta final.

Nick Cassidy
Para quem iniciou o campeonato com um pódio e uma vitória, o que permitiu sonhar com a possibilidade de brigar pelo título, a segunda metade da temporada vem sendo muito frustrante para Nick Cassidy. Reconhecido como um dos melhores pilotos em corridas de pelotão — quiçá o melhor —, o neozelandês chegou a Xangai, onde venceu no ano passado, com expectativa de um forte fim de semana para renascer na disputa. O que se viu, entretanto, foi o oposto disso.
Cassidy não foi competitivo em nenhum momento e não teve sequer a sorte ao lado. Sem ritmo em voltas lançadas, não avançou aos duelos nas definições dos grid. Na corrida de sábado, teve a estratégia comprometida por um safety-car no momento em que acionou o Modo Ataque e terminou apenas em 19º. No domingo, não seguiu o caminho adotado por Vergne, manteve o acerto para pista molhada, não conseguiu escalar o pelotão nas voltas iniciais e ainda caiu para 15º quando o traçado secou. Sem pontuar desde a primeira prova em Mônaco, o neozelandês caiu mais uma posição no Mundial de Pilotos, ocupa agora o 9º lugar e vê um campeonato que começou com altas expectativas caminhar para um fim melancólico.
Nissan
A Nissan não é sombra da equipe que dominou boa parte da temporada 2024/25 com Oliver Rowland e só não levou o Mundial porque Norman Nato foi incapaz de acompanhar minimamente o companheiro e pontuou em apenas quatro provas no campeonato inteiro. Neste ano, o time nipônico sofre com ritmo de classificação e depende exclusivamente dos brilhos do atual campeão nas corridas. Prova disso é que a disputa de domingo foi a primeira em que o britânico pontuou sem subir ao pódio — até então, ficava no top-3 ou sequer pontuava.
O 8º lugar, somado à volta mais rápida, garantiu os únicos 5 pontos da Nissan em Xangai. O fraco fim de semana custou a 5ª posição no Mundial de Equipes para a Envision e ainda colocou os nipônicos na alça de mira da Citroën. Agora, sai da China com esperança de sorte melhor na rodada dupla de casa, em Tóquio, para fechar a era Gen3 com uma nota minimamente positiva e ajudar Rowland na busca pelo bicampeonato.
A Fórmula E retorna entre os dias 24 e 25 de julho, com a realização da rodada dupla do eP de Tóquio. Emissora oficial no Brasil, o GRANDE PRÊMIO transmite todas as atividades de pista AO VIVO e COM IMAGENS no YouTube e na GPTV.
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