A participação feminina no automobilismo enfrenta obstáculos desde que foi dada a largada ao esporte. Não que não existam dificuldades gerais — não há como negar as complicações com patrocínios, acidentes e outras bandeiras vermelhas que aparecem no caminho de qualquer piloto. O que se destaca aqui é que a corrida das mulheres, além de tudo isso, ainda conta com outros desafios, e nem toda categoria parece disposta a agir para mudar esse contexto.
A Fórmula E, no entanto, tem se destacado como categoria de ponta chancelada pela Federação Internacional de Automobilismo (FIA) a viabilizar um caminho para mudar esse cenário. Desde 2024, a categoria possui um teste exclusivamente feminino, além de contar com pilotas de desenvolvimento, como as últimas campeãs da F1 Academy, Doriane Pin e Abbi Pulling. Os esforços ainda não renderam uma vaga de titular a uma mulher, mas chamam atenção pelo passo à frente em relação à F1.
Emily Holloway trabalha na Fórmula E desde 2017. Atualmente como gerente-esportiva, a britânica é a responsável por guiar a categoria no apoio a mulheres no automobilismo. Para ela, a perspectiva é positiva.
“O que fizemos — que é muito raro e, na verdade, é a primeira vez que qualquer campeonato mundial da FIA fez isso — é que, nas últimas duas temporadas, realizamos um teste totalmente feminino. Então as equipes colocaram pelo menos uma pilota, obrigatoriamente, em um dos seus assentos, no carro atual, o mesmo carro do campeonato que os pilotos titulares. A primeira temporada em que fizemos isso foi há dois anos”, declarou em entrevista ao GRANDE PRÊMIO.
Desafios anteriores à Fórmula E
Os desafios, no entanto, começam muito antes da tentativa de chegar às maiores categorias do automobilismo. Doriane Pin, francesa campeã da F1 Academy 2025 e atual pilota de desenvolvimento da Mercedes da Fórmula 1 e da Citroën na Fórmula E, é um exemplo disso.
Pin começou no kart aos 9 anos, entrou em competições aos 10, e não demorou a ter de enfrentar dificuldades por ser exceção à regra. A princípio, lidou bem com os obstáculos, sem compreender tudo completamente devido à pouca idade. Depois, passou a entender melhor por que enfrentaria mais barreiras do que os homens no automobilismo. Se eles corriam em bandeira verde, ela tinha de lidar ao menos com bandeiras amarelas, freando por conta de detritos no caminho, depois tendo de acelerar ainda mais para acompanhar o ritmo de quem nunca teve de diminuir a velocidade.

“À medida que crescemos e entendemos melhor as coisas, percebemos os muitos desafios à frente — especialmente a questão financeira e o fato de que certas oportunidades não me eram dadas tão facilmente, justamente por eu ser diferente dos outros, ou seja, por ser mulher”, disse ao GP.
“Havia, obviamente, muitas conversas e questionamentos, e até gente que não acreditava na história ou no projeto. Muitos tinham experiência no esporte e nunca haviam visto uma mulher ter sucesso — ou chegar ao nível mais alto de todos —, e, embora houvesse exceções, elas não tornavam a situação algo comum”, acrescentou.
Para Pin, o melhor jeito de lidar com a situação foi permanecer no cockpit, em busca de provar na pista o que era capaz de fazer. Com o tempo, a pilota passou a crescer no automobilismo, e conforme obtinha sucesso, sentia-se ainda mais motivada a continuar.
“O sucesso — as conquistas que alcancei — foi o que me impulsionou a cada novo passo, a cada novo carro e a cada nova oportunidade. Sempre que eu conversava com alguém, o foco era o esporte em primeiro lugar, e nada mais. Sempre fui muito clara e direta com as pessoas, dizendo: ‘Vocês estão me dando essa chance porque sou rápida o suficiente, e vou provar que fizeram a escolha certa’”, declarou.
Agora, Pin avalia que houve avanços no esporte e que existem mais oportunidades que antes para as mulheres, não só no cockpit, mas também nas áreas de engenharia, mecânica, marketing e desenvolvimento. Mesmo assim, reconhece: “Ainda há muito trabalho a ser feito”.

Testes para mulheres: o início
Levando em consideração as dificuldades maiores enfrentadas por elas para crescer no automobilismo, a Fórmula E resolveu agir. Em 2024, a categoria criou o teste exclusivo para mulheres, do qual participam todas as equipes. Com isso, a aparição feminina nas pistas cresceu.
“Ter mulheres participando do desenvolvimento — e também podendo testar o carro — é uma ótima oportunidade para mostrarmos nosso desempenho. Essas oportunidades são essenciais para que possamos trabalhar com as melhores equipes, pilotar e demonstrar nosso desempenho”, disse Pin.
“Com certeza, há mais oportunidades nesse cenário do que em outros, pois é possível notar as diferenças e, claro, existem também os testes para estreantes. Eles também planejam, todos os anos, trazer jovens talentos — o que é muito interessante e envolve uma mistura de pessoas, permitindo que você participe e tenha mais uma chance de se destacar. Há muitas iniciativas interessantes por parte deles que podem nos ajudar a criar mais oportunidades”, acrescentou.
No ano seguinte, a categoria avançou com o projeto. Holloway explicou que o tempo de pista no teste destinado exclusivamente às mulheres aumentou em 2025. No primeiro ano, foram três horas de pista; no segundo, seis.

“Na última temporada, também decidimos que iríamos dar um passo à frente e dobramos o tempo de pista para elas. Então, as equipes novamente colocaram uma piloto mulher cada e fizemos um dia inteiro de testes”, declarou.
Abbi Pulling, campeã da F1 Academy 2024 e pilota de desenvolvimento da Nissan desde 2025, participou da primeira edição do teste. Na avaliação da britânica, com ações como essa, a categoria consegue criar mais oportunidades às jovens pilotas.
“A Fórmula E está criando grandes oportunidades e proporcionando muita experiência a jovens pilotos por meio dos testes para estreantes e dos testes exclusivos para mulheres. O teste inaugural para mulheres me deu a oportunidade de construir um ótimo relacionamento com a equipe Nissan na Fórmula E e de continuar com eles como piloto estreante e de simulador”, disse ao GP.
O que esperar para temporada 2026/27
A Fórmula E ainda não anunciou o teste exclusivo para mulheres da temporada de 2026/27. Nos anos anteriores, o evento ocorreu na pré-temporada. No entanto, como a categoria irá começar a trabalhar com o carro da Gen4 agora, em dezembro, o teste ocorrerá mais adiante, ainda sem data definida.
“Teremos o teste das mulheres mais tarde na temporada, onde teremos um assento obrigatório e dois opcionais. Portanto, todas as equipes serão obrigadas a fazer isso nesta temporada. Porque é a primeira temporada da Gen4, as pessoas ainda estão se adaptando ao carro, e todas as equipes estão ocupadas montando tudo”, explicou Holloway.
“Decidimos não fazer o teste das mulheres na pré-temporada justamente por causa do tempo para a primeira corrida. Adiamos isso. Mas prevejo que provavelmente tudo voltará ao normal na temporada 14. Mas, sim, haverá um teste para as mulheres, só não no início da temporada”, acrescentou.

O que já é realidade para mulheres na Fórmula E
Fora dos testes, pilotas estão participando regularmente da Fórmula E, ainda que não com vaga de titular. A crescente é um indicativo positivo, por mais que ainda seja preciso melhorar. A corrida evidentemente não terminou, mas é pertinente reconhecer que boas voltas já foram percorridas. Por isso, Pin e Pulling trabalham como pilotas de desenvolvimento na categoria.
“É uma colaboração muito boa e agradável. Obviamente, eles estão me dando a chance de atuar como piloto de desenvolvimento este ano. É uma função importante, especialmente em um campeonato que envolve muita evolução e desenvolvimento nas categorias e também com o carro novo. É um trabalho muito legal e, claro, o primeiro passo para algo mais interessante no futuro; trata-se principalmente de construir o relacionamento e também o conhecimento sobre o carro, a equipe e todo o aspecto técnico, para então ter a chance de pilotar e, futuramente, competir no campeonato e disputar com os melhores”, comentou Pin.
“A equipe Nissan de Fórmula E é um grupo fantástico de pessoas com quem trabalhar. Aproveitei cada segundo com eles e é um prazer fazer parte de uma equipe tão consolidada. Ter a oportunidade de atuar como piloto de simulador da equipe nos fins de semana de corrida, utilizando o sistema DIL (Driver-in-the-Loop), ajudou-me a me familiarizar com todos os procedimentos e sistemas; assim, quando entro no carro de verdade, a transição ocorre de forma muito natural”, disse Pulling.
A presença de mulheres na categoria, além de ser uma evidência de que avanços ocorreram, colabora para que mais portas sejam abertas. De acordo com Holloway, a presença das mulheres nos paddocks já traz uma influência positiva, especialmente quando levamos em consideração que pilotas abandonam mais o automobilismo do que pilotos. Por isso, quando estão em categorias maiores, mundiais, agem como incentivo para as que estão na base, mostrando que o crescimento feminino no esporte a motor é uma possibilidade.

“Uma questão de oportunidades”
Por mais que as ações feitas até agora sejam relevantes e positivas, ainda resta a questão: quando veremos uma mulher correr na Fórmula E? Por mais que os avanços sejam visíveis, isso ainda não foi suficiente para uma mulher se tornar titular atualmente. A última a ocupar tal posto foi Simona de Silvestro, em 2016.
“Estamos muito próximos [de ver uma mulher correr na Fórmula E]. A Fórmula E provavelmente é um dos poucos campeonatos de alto nível no automobilismo que realmente oferece a opção para homens e mulheres competirem igualmente”, disse Holloway.
“Não há absolutamente nenhuma razão para que a equipe não as considere extremamente seriamente para serem concorrentes. Vimos até mesmo nos testes do Gen 3 Evo do ano passado, no teste feminino, que os tempos de volta que as mulheres faziam não eram muito diferentes dos dos homens”, acrescentou.
Do lado das pilotas, a perspectiva também é positiva. Pulling diz: “Acredito que estamos muito mais perto de ter uma mulher na Fórmula E do que na Fórmula 1”. E Pin destaca que é importante que as categorias não vejam as mulheres como um risco.
“Há mais chances de vermos uma mulher na Fórmula E do que na Fórmula 1 nos próximos anos, devido a essas iniciativas de promoção e também porque, na minha visão, trata-se de uma decisão da marca e do campeonato — que podem encarar a situação como um risco, em vez de vê-la como uma oportunidade. É essa mentalidade que precisamos mudar; se tivermos a oportunidade de obter sucesso e apresentar bom desempenho, não há razão para não termos essa chance. É uma questão de oportunidades e de mentalidade, eu diria”, comentou a francesa.

O que falta para uma mulher chegar ao grid da Fórmula E?
Para que mais mulheres ocupem os cockpits das grandes categorias, mais precisa ser feito. Apesar da situação de Pin e Pulling serem bons indicativos, isso não se repete para todas as pilotas, mesmo quando provam qualidade ao volante. Maya Weug, por exemplo, terminou a temporada de 2025 da F1 Academy com a vice-liderança, mas não teve uma vaga regular em outra categoria em 2026. Pulling explicou que conseguir uma vaga em alto nível é “extremamente difícil”.
“É claro que é triste ver uma piloto como a Maya, que é muito talentosa, enfrentando dificuldades para conseguir uma vaga. Garantir oportunidades em categorias GT e em níveis mais altos do automobilismo de monopostos é extremamente difícil, e isso tem se tornado ainda mais complicado à medida que os orçamentos aumentam”, disse a britânica.
Além dos gastos, a quantidade de pontos na superlicença também é um fator a ser destacado, como avaliou Holloway. Para que uma pilota tenha pontos o suficiente para chegar às categorias de topo, antes precisa receber apoio na base.
“Para conseguir a quantidade certa de pontos na licença, eles precisam terminar em uma certa posição em outros campeonatos da FIA. Por exemplo, se você terminar em primeiro na F1 Academy, ganha 10 pontos. No entanto, para competir na Fórmula E, precisa ter 30 pontos na carteira. Então, antes de tudo, é [preciso] apoiar mulheres em outros campeonatos para conseguir esses pontos”, explicou.

“Em segundo lugar, é uma questão de dar a elas a oportunidade onde podem. Então, seja em um assento de novata, no teste de mulheres ou até mesmo no FP0 de novatos, que dura cerca de 40 minutos, ainda assim dar a elas a oportunidade de mostrar o que podem fazer. Também vamos fazer um trabalho com a FIA para tornar isso mais acessível. Se uma família não tem € 2,5 milhões (R$ 14,9 milhões, na cotação mais recente) para pagar por uma vaga na F2, como mais podemos oferecer oportunidades para ela conseguir esses pontos na carteira?”, prosseguiu.
Com isso, torna-se evidente que a categoria está disposta a colaborar com a participação feminina no automobilismo. No entanto, ainda encontra barreiras, que aparecem tanto na base, quanto na tentativa de ascensão das mulheres no esporte a motor.
A corrida ainda não acabou, pelo contrário, continua até que as pilotas tenham mais lugar nas categorias de ponta. Ainda assim, é positivo notar que existe o esforço para que os entraves tenham cada vez menos espaço. Por fim, fica claro que é possível que uma pilota ocupe uma vaga na Fórmula E no futuro, desde que a dedicação em liberar caminho a mais mulheres no automobilismo permaneça e se intensifique, para que assim pilotas possam, enfim, ver a bandeira quadriculada.
Confira a primeira parte da reportagem especial sobre a saga do automobilismo feminino.