Iniciar a carreira no automobilismo ainda criança não chega a ser uma novidade. Porém, no caso de Leonardo Escorpioni, os primeiros passos no esporte começaram bem cedo, com somente dois anos de idade. Aos 16, o jovem natural de Birigui, São Paulo, já traça o caminho Rumo à Glória na Indy e pode ser o próximo brasileiro na categoria em um futuro próximo. O GRANDE PREMIUM detalha a jornada e os sonhos do piloto, que também precisa conciliar as corridas com a escola.
A paixão de Escorpioni pelo automobilismo começou bastante cedo. Vendo o pai correr na Mercedes-Benz Challenge, o interesse de Leonardo pelo esporte foi praticamente imediato, embora seja difícil ter uma lembrança da primeira experiência no kart.
“Meu pai começou a correr quando já era mais velho, com uns 35 anos, mais ou menos, e competia no Mercedes-Benz Challenge, no Brasil. Sempre me lembro de vê-lo correndo e pensava: ‘Nossa, quero pilotar também‘”, conta o brasileiro ao GRANDE PREMIUM, no programa semanal Sprint GP. “Tenho algumas fotos em que estou sentado no carro dele, muito feliz. Ser piloto sempre foi meu sonho, praticamente desde que nasci. Comecei a andar de kart aos dois anos, então não lembro muito da primeira vez. Meu pai conta que viajou para a China, comprou um kart e trouxe para o Brasil. Quando comecei a andar, eu me apaixonei“, prossegue.
A família Escorpioni decidiu deixar o Brasil e se mudar para os Estados Unidos quando Leonardo tinha sete anos. Em terras estadunidenses, o brasileiro não teve dúvida de onde gostaria de pilotar: a Indy. E desde muito jovem, já tinha percepção da dificuldade para chegar à Fórmula 1.
“Tentei ser realista. Desde o começo, sabia que chegar à F1 seria muito difícil, então vi outro caminho. Meu pai competiu com carros de turismo, mas eu sempre me interessei mais pelos monopostos, pela velocidade e pela sensação ao volante, que me lembra um pouco o kart. O carro tem bastante downforce e a sensação nas curvas é diferente. Eu sempre assistia às 500 Milhas de Indianápolis e achava a corrida muito legal. Vi que a Indy era um caminho mais provável para mim do que a F1 e foquei nisso desde o início. Nunca considerei seriamente outro caminho, como a Nascar ou a Fórmula 1 — meu foco sempre foi a Indy“, justificou.
Embora não tenha tido dúvidas sobre qual categoria gostaria de correr, a principal inspiração do brasileiro não é algum piloto da Indy ou um compatriota, e sim Max Verstappen, tetracampeão mundial de F1.

“O piloto que mais observo e que considero um dos melhores é Max Verstappen. Admiro principalmente a mentalidade dele e a maneira como pensa. Acho isso muito interessante e é algo que gostaria de ter também. Ele não se preocupa muito com outras coisas: só quer ganhar. É essa característica que me inspira”, exaltou.
Escorpioni passou a trilhar o caminho rumo à categoria estadunidense após o kart. Em 2024, fechou com a Zanella Racing, estreou na USF Juniors — o primeiro degrau do USF Pro Championship, caminho que tem atraído pilotos do mundo inteiro em busca do profissionalismo — e finalizou a temporada na nona colocação.
O brasileiro seguiu na categoria e na mesma equipe no ano seguinte. E não tomou conhecimento da concorrência: conquistou seis vitórias em 16 corridas, o que rendeu o título da temporada 2025. Com isso, conseguiu uma bolsa para garantir o orçamento para disputar a USF2000. Porém, um teste em Sebring o fez subir mais um degrau na escada rumo à Indy.
“Eu ia disputar a USF2000, estava tudo certo. Antes de a temporada começar, houve um teste em Sebring. Peter [Dempsey], da Turn 3, perguntou ao dono da equipe e ao nosso engenheiro se eu gostaria de testar o carro da Pro 2000. Meu engenheiro já tinha trabalhado no time, e havia um carro disponível para eu experimentar por um dia e aprender, pensando no ano seguinte. No primeiro treino, já fui o mais rápido. Vimos que estava dando certo, e Peter queria que eu disputasse a temporada”, sublinhou.

Apesar do salto de categoria — que contou com certo apoio da própria USF —, a decisão se mostrou mais do que acertada. Escorpioni venceu cinco corridas e foi vice-campeão da Pro 2000. “Fizemos as duas primeiras etapas tanto na USF2000 quanto na Pro 2000. Acabei vencendo em Arlington, na primeira corrida do ano. Depois, [Jack] Jeffers teve um acidente, e a disputa pelo campeonato da Pro 2000 passou a fazer mais sentido para nós. Foi uma temporada muito boa, embora tenha havido alguns momentos difíceis. Conquistamos muitas coisas e venci as três corridas em Mid-Ohio. Acho que foi a melhor decisão da minha vida. Estou muito feliz com o ano”, destacou.
A ajuda de Victor Franzoni no desenvolvimento de Escorpioni também foi essencial. Apesar de nunca ter chegado à Indy, o paulista tem passagem pelas categorias de base e tem diversos contatos no paddock.
“Tenho bastante ajuda do Victor, que hoje não corre mais, porém, já competiu na Indy NXT e foi campeão da Pro Mazda. Também é meu treinador e empresário, e conhece muita gente do grid. Franzoni me ajudou muito a me tornar o piloto que sou hoje. Evoluí graças a ele, passei a entender como deveria pilotar e a me preparar para os fins de semana. É meu treinador desde que comecei a andar de carro e, às vezes, também me orientava no kart. Também me ensinou a não complicar demais as coisas e me ajudou a ficar mais calmo. Antes, eu era muito estressado e me preocupava com tudo. Victor me ajudou a guiar com mais tranquilidade, sem me estressar tanto e deixando as coisas acontecerem. Contribuiu muito para a minha pilotagem“, reiterou.
A vida de piloto também conta com desafios fora da pista. Com apenas 16 anos, Escorpioni tem de conciliar as corridas com os estudos, o que não é uma tarefa simples.
“Este ano mudou bastante para mim. Comecei a estudar on-line, e isso está me ajudando muito. Antes, era difícil conciliar tudo: quando não estava pilotando, estava trabalhando com a Zanella, ajudando outros pilotos. Eu quase nunca ficava em casa e faltava muito à escola, que reclamava das minhas ausências. Com o ensino on-line, consigo me concentrar mais nas corridas. Meu pai não liga muito, então tive sorte nesse aspecto“, admitiu.

É verdade que o brasileiro levou a pior no duelo com Jeffers na decisão em Road America, que fechou a temporada 2026 da Pro 2000 — 18 pontos separavam os dois antes da rodada tripla —, mas não ter participado da etapa em Markham facilitou a vida do estadunidense. Por conta de problemas com o visto canadense, Escorpioni não pôde viajar.
“Moramos nos Estados Unidos, mas nasci no Brasil e vivi lá até os sete anos, quando me mudei para cá. Estávamos em um processo para conseguir os documentos, mas eles não chegaram a tempo. Estava tudo aprovado, mas não recebemos a documentação dentro do prazo. Desde o começo do ano, já sabíamos que isso poderia acontecer. Esse foi um dos fatores na escolha pela Pro 2000: entendíamos que seria difícil conquistar qualquer um dos campeonatos, tanto na USF2000 quanto na Pro, porque as duas categorias correriam no Canadá”, esclareceu.
“Pensamos que, na Pro, eu aprenderia mais e pularia uma etapa, mesmo sendo mais difícil. O carro da Turn 3 é muito bom em pistas de rua, e acredito que teríamos sido fortes lá. Talvez eu não ganhasse as duas corridas, mas acho que poderia ter vencido pelo menos uma. Nesse cenário, chegaria a Road America com uma vantagem grande sobre Jeffers e estaria perto de conquistar o título”, explicou.
Um dos pontos altos na campanha de Escorpioni foi a varrida na rodada tripla de Mid-Ohio. Os bastidores deixam a façanha ainda admirável, já que Leonardo sofreu com um mal-estar e chegou a perder 7 kg naquele fim de semana. “Estava muito doente e perdi cerca de 7 kg ao longo da etapa. Toda vez que entrava no carro, pensava que precisava guiar o mais rápido possível para poder sair dele. Nos treinos, não estava tão rápido porque passava muito mal e quase vomitava. Foi o fim de semana mais difícil para mim, mas o resultado foi muito bom”, salientou.

Embora tenha conquistado cinco triunfos na temporada 2026 da Pro 2000, nenhum deles foi em oval. A dificuldade deste tipo de circuito deixou mais evidente a falta de experiência do brasileiro, já que pulou a USF2000. Por isso, já considera até participar de corridas de late models — o primeiro passo rumo à Nascar.
“Gostei muito dos ovais. É uma sensação diferente, tudo acontece muito rápido, e achei muito legal. Não venci em oval este ano, mas não foi por causa da equipe. No primeiro fim de semana no Lucas Oil Raceway, fiz a pole, mas meu companheiro de equipe estava mais rápido na corrida. Em Milwaukee, acho que tínhamos o carro mais rápido, mas cometi um erro na classificação. Como era difícil ultrapassar na corrida, sabíamos que largar mais atrás seria um problema. Não consegui extrair tudo do carro e não fiz a pole”, reconheceu.
“Acho que estou andando bem nos ovais, mas ainda posso melhorar. Como pulei a USF2000, não tenho a mesma experiência que outros pilotos, que já correram nessa categoria e estão no segundo ano da Pro 2000. Ainda é o aspecto mais difícil para mim em comparação com pistas de rua e circuitos mistos, mas gosto muito e estou focado em melhorar antes de ir para a Indy NXT”, garantiu.
“Estou avaliando se consigo disputar uma corrida de late models, que são carros menores e mais próximos dos usados na Nascar, para ganhar experiência em ovais. Estou tentando ver se consigo fazer uma corrida. Voltar uma etapa na escada dos monopostos para depois avançar novamente não me parece fazer tanto sentido”, analisou.

A temporada 2026 também marcou a primeira de Escorpioni como piloto de desenvolvimento da HMD, equipe da Indy NXT que teve Enzo Fittipaldi como um dos representantes neste ano. Além do aprendizado, o vínculo já possibilitou Leonardo defender o time em dois testes da categoria, ambos no circuito misto de Indianápolis. No primeiro deles, foi o mais rápido.
“Foi uma ótima oportunidade assinar com a HMD como piloto de desenvolvimento. Estou com a equipe nos fins de semana e aprendo muito. Isso me ajudou bastante na Pro 2000. Acompanhar o time nas pistas, observar como trabalham e ouvir pelo rádio como os pilotos da Indy NXT conversam com os engenheiros e dão feedback me ajudou a melhorar. Desde que entrei no programa, sinto que estou evoluindo muito como piloto. É uma grande oportunidade estar perto da escuderia e aprender como tudo funciona”, enalteceu.
Mesmo sem o título da Pro 2000, o salto para a Indy NXT parece questão de tempo. Por ser muito jovem, o plano inicial é chegar à Indy em 2029, no entanto, o objetivo pode mudar caso tenha um forte desempenho desde o início na categoria.
“Ainda não tenho um prazo muito definido. Vou tentar chegar à Indy em 2028, mas, por enquanto, o plano é 2029. A ideia é fazer dois anos na Indy NXT e tentar conquistar o campeonato no segundo. Mas vamos ver. Se eu já for rápido desde o começo, vou tentar ser campeão no ano que vem e chegar à Indy em 2028. Vai ser muito difícil, mas vou dar o meu melhor”, ratificou.

O ano de 2028 marca a estreia do IR-28, novo carro da categoria, que contará com uma série de novidades, que incluem um modelo mais leve e mais rápido. Com isso, os custos das equipes vão aumentar consideravelmente, o que exigirá dos pilotos ainda mais dinheiro para conquistar uma vaga no grid. E Escorpioni está ciente do desafio.
“Para quem tentar entrar na Indy nos próximos dois anos, serão temporadas muito caras. A chegada de um carro novo envolve muitas despesas. Ainda não cheguei a esse estágio, então tenho tempo para pensar nisso e não estou tão preocupado agora. Sei que não será fácil, mas preciso fazer meu trabalho e tentar ganhar. Depois, também tentarei ganhar a Indy NXT, porque há uma premiação que ajuda. Preciso fazer o meu trabalho, vencer tudo o que puder e conseguir o dinheiro necessário para chegar à Indy. Ainda tenho algum tempo antes de precisar lidar diretamente com isso”, avaliou.
O brasileiro acredita que a pouca idade não será um problema nos anos seguintes, já que as equipes estão passando a dar preferência por pilotos mais jovens nos últimos anos.
“A USF Juniors teve um papel importante, porque permite que os pilotos andem de carro a partir dos 14 anos. Comecei nessa idade, e agora os pilotos saem do kart mais cedo e vão subindo de categoria ainda jovens. Assim, continuam adquirindo experiência enquanto são novos. Acho que as idades vão continuar caindo e ficando mais próximas do que vemos na Fórmula 1. Sou um dos mais jovens na Pro 2000 e, se correr na Indy NXT no ano que vem, também serei um dos mais novos“, observou.
Caso o sonho de entrar no grid da Indy se concretize, há outro a ser realizado: vencer a prova de maior prestígio da categoria. “Meu maior sonho é vencer as 500 Milhas de Indianápolis. Quando você está lá, assistindo, sente que é uma coisa absurda. Toda a preparação, o que acontece antes da largada, os fãs… não existe nenhuma corrida igual no mundo”, elogiou.

Embora ainda não haja nenhum acordo definido, a Indy flertou com Goiânia para uma corrida em solo brasileiro, algo que não acontece desde 2013 — quando Escorpioni tinha somente três anos. Mesmo que não ocorra no ano que vem, o Autódromo Internacional Ayrton Senna ainda pode aparecer no calendário da categoria no futuro, o que aumenta ainda mais o entusiasmo de Leonardo, que também deseja correr em Interlagos, nem que seja por outra competição.
“Conversei com meu pai sobre isso. Ele já correu em Goiânia e me disse que é uma pista muito legal. Eu gostaria muito de correr no Brasil. Mesmo que eu chegue à Indy e a categoria não vá para lá, quero visitar o país e tentar disputar uma corrida em Interlagos, Goiânia ou em pistas assim. Se a Indy for para o Brasil e eu estiver na categoria para competir lá, será algo muito especial“, encerrou.