Ao fim da sexta-feira de treinos livres, após um sonoro recado de que a Ferrari era a força a ser batida, Frédéric Vasseur tentou minimizar os números e, sabiamente, afirmou que “não estava buscando a melhor sexta-feira do ano, mas, sim, o melhor domingo”. Porque é o dia que importa na F1 e é quando tudo precisa ser perfeito. O time vermelho estava no lugar certo e na hora certa, mas de alguma maneira conseguiu colocar tudo a perder. A verdade é que a equipe italiana vai carregar um peso indigesto para as férias, porque o péssimo trabalho nas 70 voltas do GP da Hungria não só representa uma derrota doída, como também põe tudo em perspectiva, principalmente as chances no campeonato.

Não era segredo para ninguém que a Ferrari encarava a Hungria como um palco de extrema importância nesta reta final de primeira parte de temporada. A natureza do circuito húngaro era mais do que suficiente para colocar a SF-26 em evidência. E mais que isso, era a oportunidade de vencer a Mercedes em um terreno menos desigual. Não à toa, os engenheiros de Maranello prepararam atualizações específicas para Budapeste, revisaram a simpática asa Maracena e entregaram um carro equilibrado, bom nas curvas de baixa velocidade e menos sensível ao superaquecimento dos pneus. Ninguém andou como a Ferrari.

Da expectativa de pole em dobradinha no sábado, a escuderia amargou uma punição que tirou Lewis Hamilton da primeira fila e que poderia ter sido evitada, inclusive — o heptacampeão já havia perdido a pole para Lando Norris. Além disso, uma opção estratégica acabou evidente ainda na classificação — a decisão de usar pneus médios no Q1 e reservar um jogo de macios para a corrida tinha propósito. Mas isso só funcionaria com a primeira fila em uma largada certeira. Nem uma coisa e nem outra. A Ferrari insistiu na tática e fez Hamilton, quinto, partir de macios. Charles Leclerc, segundo após herdar a posição do companheiro punido, saiu de compostos macios usados — outro risco mal calculado. Mas o aconteceu depois que as luzes se apagaram foi ainda pior. Porque Hamilton foi superado por Max Verstappen, enquanto o monegasco largou muito mal e não conseguiu acompanhar o pelotão da frente.

Apesar do bom ritmo com os macios nas primeiras voltas, Hamilton se viu preso atrás do tetracampeão da Red Bull por tempo demais em meio às dificuldades de ultrapassagem da pista magiar, e isso acabou com a estratégia ou qualquer chance de vitória, uma vez que os carros da McLaren pularam à frente e já se distanciavam. Como consequência, a Ferrari precisou antecipar as paradas, numa tentativa de ainda salvar o pódio. Até conseguiu o undercut, mas Verstappen surgiu como um foguete após responder a tática ferrarista e executou talvez a ultrapassagem mais bonita dessa nova geração de carros da F1.

Limitado novamente pela Red Bull, Lewis também enfrentou problemas em manter o desempenho. Leclerc sofreu o mesmo. O monegasco ainda tentou uma conversa com a equipe, para entender as falhas, mas o que se viu foi mais uma troca amalucada. Enquanto falava que talvez o superaquecimento dos pneus pudesse ser a causa da falta de performance, o engenheiro também pediu a Charles que retomasse o ritmo. A resposta do piloto disse muito sobre a corrida ferrarista: “Qual ritmo?”

A largada do GP da Hungria foi decisiva para a Ferrari (Foto: AFP)

Qual ritmo? Realmente impressionou a queda de performance e leitura de prova. O desempenho ruim fez com que o pit-wall também antecipasse o segundo pit-stop de Lewis, alocando um novo jogo de pneus de duros. Só que o safety-car virtual, causado pelo abandono de Piastri, acabou sendo o erro maior. A Ferrari decidiu chamar o inglês e trocar para os compostos macios. O próprio Hamilton considerou um equívoco, porque os pneus duros ainda poderiam chegar ao fim da corrida, mesmo que a disputa com Verstappen fosse mais difícil. Sim, o neerlandês seguia à frente dos ferraristas, na segunda posição.

E como se não bastasse a perda em pista, o piloto #44 ainda foi punido por excesso de velocidade no pit-lane. No fim, terminou em quinto, atrás do companheiro de garagem, por conta dos 5s da sanção. A diferença entre os dois era de 4s5 — melhor colocado no campeonato, a escuderia nem cogitou a ideia de o monegasco reduzir o ritmo e evitar a perda da posição do heptacampeão. Mais um exemplo de uma percepção pobre da corrida e do campeonato em termos gerais.

“Não tinha muita certeza do porquê de termos parado no final. Fui chamado pouco antes de entrar nos boxes, então não tive tempo de discutir o assunto. Jamais teria parado se achasse que perderia posições na pista”, explicou Hamilton após a corrida. “Acho que provavelmente teríamos perdido a posição para Max. Ele estava com pneus mais novos. Imagino que talvez no último trecho eu pudesse ter mantido o segundo lugar; ele estava se aproximando. Mas o mais provável é que tivesse ficado em terceiro e teria sido muito melhor. Em vez disso, perdemos muitos pontos.”

Dito isso, a Ferrari sai derrotada da Hungria, onde deveria ter vencido. Quarto e quinto lugares são resultados aquém do esperado. E isso tem um peso ainda maior se colocar na balança o fato de que a equipe foi capaz de driblar as limitações em circuitos que não lhe favoreciam, como Spa-Francorchamps e Bélgica. A corrida húngara expôs as muitas fragilidades que o time vermelho ainda carrega. Ousar na estratégia é sempre interessante, mas, às vezes, diante das condições, uma tática conservadora, ou mesmo uma divisão entre os dois carros, pode funcionar — ao menos para conter danos. Ainda, os pilotos têm uma parte de responsabilidade sobre tudo que aconteceu em Budapeste. É preciso também ser agressivo e decisivo quando a situação pede. É assim que se leva campeonatos.

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Frédéric Vasseur assumiu os erros da Ferrari (Foto: Rodrigo Ruiz/Grande Prêmio)

“Esperávamos uma dobradinha, e conseguimos, mas não no dia certo. Cometemos muitos erros e tomamos muitas decisões ruins. Fomos os únicos a perder posições na pista. Tudo deu errado: nesta pista, só há um ponto para ultrapassar. Todos gastam energia ali, e se você for um pouco mais lento na reta, não consegue ultrapassar”, reconheceu o chefe Frédéric Vasseur, antes de resumir o GP da Hungria e as consequências para a temporada.

“Se você comete um erro, inevitavelmente se encontra na situação oposta, então tudo dá errado desde o início. Perdemos a pole-position por um centésimo de segundo. Um pequeno erro nos custou muito, perdendo posição após posição. Nesta F1, você precisa ser sempre perfeito para se manter na frente”, encerrou.

É isso. Daqui para frente, se ainda quiser brigar pelo título e encarar a Mercedes, a Ferrari terá de ser perfeita.

A Fórmula 1 agora entra de férias. A categoria retoma as atividades da temporada 2026 de 21 a 23 de agosto, com o GP dos Países Baixos, em Zandvoort.

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