Com a chegada de Lewis Hamilton no início da temporada 2025, era natural que Charles Leclerc perdesse espaço como o grande nome da Ferrari na Fórmula 1. Não que a escuderia tenha deixado o monegasco de lado, longe disso, uma vez que a renovação recente de contrato provou que o #16 continua sendo quem vai liderar o time de Maranello pelos próximos anos. Mas, ao mesmo tempo, ter um dos maiores nomes da história do esporte na garagem ao lado obviamente mudou a dinâmica das coisas.

E se o heptacampeão mundial ficou muito distante do próprio potencial no ano passado, 2026 começou de maneira diferente. Com a nova geração de carros, sem o efeito solo que o assombrou nos quatro campeonatos anteriores, o britânico tomou as rédeas do desenvolvimento da SF-26 e conquistou logo na China, na segunda etapa do ano, algo que não havia feito até então: o tão sonhado pódio com o macacão vermelho. Em meio ao domínio da Mercedes que se desenhou nas primeiras corridas, também foi o primeiro a quebrar a hegemonia de Andrea Kimi Antonelli e George Russell com a vitória na Catalunha.

Embora Hamilton tenha assumido o papel de protagonista da Ferrari em determinados momentos, não dá para dizer que a temporada de Leclerc foi muito inferior até aqui. O monegasco, inclusive, começou o ano à frente do companheiro de equipe, quando ensaiou uma briga pela vitória nas primeiras voltas do GP da Austrália antes de ter de se contentar com o terceiro lugar. Em Xangai, ambos terminaram no top-3 da sprint, mas foi o #44 quem garantiu o pódio na corrida de domingo.

No GP do Japão, Charles voltou a figurar entre os três primeiros colocados, com Lewis cruzando a linha de chegada somente na sexta posição. Quase um mês depois — visto que a F1 precisou adiar os GPs do Bahrein e da Arábia Saudita devido aos conflitos no Oriente Médio —, os dois deixaram o GP de Miami, que contou também com a prova curta, exatamente com o mesmo número de pontos. Ou seja, enquanto se esforçava para reduzir a diferença em relação à Mercedes, a escuderia liderada por Frédéric Vasseur contava com competidores em níveis semelhantes de performance.

O cenário só começou a mudar mesmo a partir do GP do Canadá, quando Leclerc passou a sofrer com problemas no freio da SF-26. Em Montreal, porém, os danos não foram tão significativos, visto que tirou proveito do abandono de Russell para receber a bandeira quadriculada em quarto. Mas houve, sim, um ponto de atenção: a diferença para Hamilton, segundo colocado, foi de 34s, a maior entre eles nas 11 etapas realizadas nessa primeira metade da temporada 2026.

A situação se agravou duas semanas depois, em Mônaco. Na corrida de casa, o #16 começou a reclamar dos freios desde os primeiros momentos do fim de semana, afirmando que o comportamento do carro “mudava em cada curva” e, por isso, sentia-se sem confiança para ir ao limite nas apertadas ruas de Monte Carlo. Bem, os temores se confirmaram no domingo: no momento da relargada do safety-car causado pela batida de Lance Stroll, o monegasco, que estava em terceiro, encontrou-se com o muro exatamente na mesma curva 18. Ainda que um problema no asfalto tenha chamado atenção, o piloto da Ferrari culpou mesmo o carro.

O GP de Mônaco terminou mais cedo para Charles Leclerc (Foto: Reprodução/F1)

“Dos quatro freios, três não estavam funcionando. E, em um carro de F1, isso nunca é uma coisa boa. O dianteiro esquerdo estava funcionando bem. O dianteiro direito funcionava apenas parcialmente e os dois freios traseiros não funcionavam de forma alguma. E quando digo ‘de forma alguma’, quero dizer que, pelos dados, não havia qualquer desaceleração. Era como se, sei lá, as pinças de freio nem estivessem no carro. Então isso é um problema considerável”, disse na época. Foi então que a Brembo, fornecedora de freios da Ferrari, mostrou-se surpresa com as críticas.

Na tentativa de resolver de vez o problema, Leclerc e a equipe optaram por adotar discos e pastilhas da Carbon Industrie para o GP de Barcelona-Catalunha em diante. Uma decisão, inclusive, que havia sido tomada por Hamilton desde o Japão, quando os dois pilotos testaram a mudança durante os treinos livres. No circuito espanhol, tudo ia bem até a classificação, quando cometeu um erro no Q3 e precisou largar da décima posição. No dia seguinte, na 63ª volta, abandonou com problemas hidráulicos.

Mas apesar de tudo, a questão com os freios parecia ter sido finalmente resolvida. No GP da Áustria, a Ferrari sofreu como um todo: embora Charles e Lewis tenham se classificado na segunda e terceira posição, respectivamente, o carro perdeu muito desempenho no quente asfalto de Spielberg, ficando sem ritmo para acompanhar Mercedes, Red Bull e até mesmo a McLaren. Porém, o temor maior estava nas longas retas do GP da Inglaterra, prontas para expor as deficiências da unidade de potência.

Para a surpresa de todos, inclusive da Ferrari, o ritmo no Circuito de Silverstone foi impressionante. Claro que Leclerc contou com a falta de confiabilidade da Mercedes, que impediu Antonelli de ensaiar um ataque final, para cruzar a linha de chegada na primeira posição. Com sorte ou não, algo estava claro: além dos freios, mudanças importantes nos ajustes da SF-26 ao longo do fim de semana deixaram o monegasco muito mais satisfeito com a dirigibilidade, o que o colocou de volta na briga pelo protagonismo dentro da equipe contra Hamilton.

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Charles Leclerc conquistou a única vitória até aqui em 2026 na Inglaterra (Foto: Ferrari)

E nada melhor para provar isso do que Spa-Francorchamps, um traçado ainda mais complicado para o carro. Dos treinos livres até a classificação, o monoposto vermelho mostrou potencial. Ao largar da quarta posição, o monegasco saltou para o segundo lugar ao fim da reta Kemmel e chegou a assumir provisoriamente a liderança da corrida quando o safety-car virtual foi acionado para a limpeza da pista. Ainda que não tivesse equipamento bom o suficiente para segurar o italiano das Flechas de Prata, o segundo lugar no GP da Bélgica foi o suficiente para reviver de vez as esperanças do piloto em 2026.

O GP da Hungria então se apresentou como a etapa que poderia ser a cereja do bolo. Após dois resultados positivos em pistas desfavoráveis à SF-26, a travada pista de Budapeste era tudo que a Ferrari sonhava para fechar a primeira metade da temporada com chave de ouro. Só que não aconteceu. A equipe até dominou as ações nos treinos de sexta-feira, mas tudo desandou a partir do TL3, quando Lando Norris impôs um domínio com a McLaren que garantiu ao atual campeão a primeira vitória em 2026.

Restou a Leclerc então questionar a inconsistência da escuderia. E com razão. Embora seja a equipe que menos sofra com questões de confiabilidade entre as integrantes do top-4, ainda assim não parece ser capaz de maximizar o resultado sempre que as oportunidades aparecem. Justiça seja feita, os pilotos também carregam parcela de culpa, como foi até mesmo no Hungaroring, incapazes de ultrapassar Max Verstappen nas voltas iniciais, que novamente sofreu com o carro da Red Bull.

A questão que fica é: o que esperar do embate entre o monegasco e Hamilton nas corridas que ainda restam? Assim como em qualquer equipe, existe uma briga pela liderança, ainda mais na Ferrari, que possui tendência de crescimento na F1. A escuderia tropeçou aqui e ali, como foi destacado, mas a promessa de novas atualizações pode ajudá-los a incomodar a Mercedes cada vez mais. E nesse cenário, Charles deu uma belíssima resposta na batalha interna.

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Foto: Gabriel López/Grande Prêmio

Se Vasseur e companhia já cogitavam priorizar Hamilton na caça a Antonelli, essa decisão agora foi, pelo menos, adiada por mais algum tempo. É verdade que o heptacampeão tem 31 pontos de frente na tabela do Mundial (169 x 138), mas na janela das últimas três etapas, quando Leclerc passou a se entender mais com o carro, o #16 somou 59 tentos contra 44 do companheiro de time. Performance mais condizente com o talento do piloto, que foi o grande nome da base de Maranello em 2025, primeiro ano da parceria.

Até porque o duelo está dos mais interessantes. Sem contar as sprints, Leclerc leva vantagem na classificação, com placar de 6 x 5, enquanto o britânico acumulou cinco pódios contra quatro do monegasco. Ambos somaram pontos em todos as corridas em que terminaram, com uma vitória para cada lado. Agora é espera para ver como será o desempenho da dupla do GP dos Países Baixos em diante. Principalmente em Monza, diante dos tifosi, onde o prestígio pode escalar exponencialmente.

Se Lewis provou que voltou à velha forma com o novo regulamento, Charles de forma alguma deve ser menosprezado. Desde que se tornou o rosto da Ferrari, em 2019, sempre entregou tudo o que podia com o carro, mesmo sem ter recebido um com o qual fosse capaz de brigar pelo título ao longo de todo o ano. E amadureceu bastante também, cometendo menos erros do que outrora. Em resumo, um competidor à altura para incomodar e, ao mesmo tempo, impulsionar Hamilton. Quem ganha com isso é a Ferrari.

A Fórmula 1 está de férias. A categoria retoma as atividades da temporada 2026 de 21 a 23 de agosto, com o GP dos Países Baixos, em Zandvoort.

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