A Ferrari vive mais um momento de questionamentos sobre o trabalho de Frédéric Vasseur na Fórmula 1. Mesmo ocupando a segunda posição no Mundial de Construtores de 2026, a equipe italiana continua distante da Mercedes, enfrenta discussões recorrentes sobre decisões estratégicas e voltou a ter o comando colocado em dúvida diante das especulações envolvendo Christian Horner. Entretanto, um levantamento do GRANDE PRÊMIO revela que a situação esportiva da Scuderia não é tão negativa quanto a repercussão das últimas semanas poderia sugerir.

A comparação considera a classificação do Mundial de Construtores após a 17ª etapa de cada temporada, desde 2022, último ano antes da chegada de Vasseur. O resultado mostra que a Ferrari soma 444 pontos em 2026, sua maior pontuação nesse estágio do campeonato desde que o francês assumiu o comando, em 2023. A equipe também ocupa a melhor posição do período, em segundo lugar.

O problema aparece quando os números são comparados aos principais adversários. Embora a Ferrari tenha acumulado mais pontos em 2026 do que em qualquer outra temporada de Vasseur após 17 corridas, a distância para a Mercedes é de 134 pontos. Em 2024, quando chegou a disputar o título de construtores até a última etapa, a diferença para a McLaren era de apenas 51 pontos no mesmo momento do campeonato.

A contradição ajuda a explicar por que Vasseur continua pressionado. A Ferrari evoluiu em relação ao desempenho de 2025 e voltou a vencer corridas, mas ainda não conseguiu estabelecer uma trajetória consistente de aproximação com a liderança da Fórmula 1.

Ferrari tem melhor pontuação da gestão Vasseur após 17 etapas

A análise das últimas cinco temporadas mostra oscilações expressivas no desempenho da Ferrari. Em 2022, ainda sob o comando de Mattia Binotto, a equipe era vice-líder do Mundial, com 439 pontos, 137 atrás da Red Bull.

No primeiro ano de Vasseur, em 2023, a Ferrari chegou à 17ª etapa apenas em terceiro, com 298 pontos. A Red Bull já havia acumulado 657, estabelecendo uma diferença de 359 pontos, a maior registrada no levantamento.

A situação mudou radicalmente em 2024. A Ferrari chegou à 17ª corrida com 425 pontos, contra 476 da McLaren. Embora estivesse novamente em terceiro lugar, aparecia apenas 51 pontos atrás da liderança e ainda tinha possibilidades concretas de disputar o título.

Em 2025, entretanto, houve novo retrocesso. A equipe italiana somava 286 pontos após 17 etapas, ocupava a terceira posição e estava 337 atrás da McLaren. O próprio Vasseur já havia reconhecido que a Ferrari não conseguiu manter o nível de trabalho apresentado em 2024, destacando os pontos perdidos ao longo da temporada e a necessidade de reduzir os erros operacionais.

A recuperação de 2026 levou a Ferrari ao segundo lugar, com 444 pontos, enquanto a Mercedes alcançou 578.

Ferrari após 17 etapas — 2022 a 2026

AnoPosiçãoPontos FerrariLíderPontos do líderDiferença
20222º439Red Bull576-137
20233º298Red Bull657-359
20243º425McLaren476-51
20253º286McLaren623-337
20262º444Mercedes578-134

Levantamento do GRANDE PRÊMIO com base nas classificações após a 17ª etapa de cada temporada. O recorte inclui pontos das sprints disputadas até aquele momento. Os dados de 2022 a 2025 devem ser conferidos com os boletins históricos correspondentes antes da publicação definitiva.

A comparação demonstra que 2026 é o melhor ano de Vasseur em pontuação bruta e posição após 17 etapas, mas não necessariamente o mais competitivo.

Em relação a 2025, a Ferrari acumulou 55,2% mais pontos no mesmo estágio do calendário. A diferença para o líder também diminuiu de 337 para 134 pontos.

Entretanto, o aumento da pontuação não significa, isoladamente, uma melhora equivalente no desempenho. A quantidade de sprints, a distribuição dos pontos e a competitividade dos adversários influenciam os totais.

F1 2026, SINGAPURA, MARINA BAY, CORRIDA, FERRARI, LEWIS HAMILTON, CARRO
Lewis Hamilton (Foto: Ferrari)

Ferrari esteve muito mais perto do título em 2024

Uma segunda forma de avaliar a evolução da equipe é comparar sua pontuação com a do líder do campeonato.

Em 2023, a Ferrari tinha apenas 45,4% dos pontos acumulados pela Red Bull. No ano seguinte, alcançou 89,3% da pontuação da McLaren, mostrando uma aproximação importante. O índice voltou a cair em 2025, para 45,9%, antes de subir para 76,8% em 2026.

Pontuação da Ferrari em relação ao líder

AnoFerrari/líderPontos por GP
202276,2%25,82
202345,4%17,53
202489,3%25,00
202545,9%16,82
202676,8%26,12

O percentual representa a relação entre a pontuação da Ferrari e a da equipe líder, não o aproveitamento sobre todos os pontos disponíveis. A média por GP inclui eventuais pontos de sprints.

O levantamento revela um padrão de avanços e retrocessos sucessivos. A Ferrari melhorou significativamente em 2024, perdeu competitividade relativa em 2025 e voltou a reagir em 2026.

A temporada de 2024 continua sendo a principal referência positiva do trabalho de Vasseur. Naquele ano, a Ferrari conquistou cinco vitórias, chegou à decisão do Mundial de Construtores ainda com possibilidades matemáticas e terminou apenas 14 pontos atrás da McLaren.

O francês manteve a disputa viva até Abu Dhabi e, depois do GP do Catar, afirmou que a Ferrari precisava de concentração total para tentar conquistar o título na última etapa.

Em 2026, por outro lado, a equipe tem duas vitórias após 17 etapas, contra 11 da Mercedes. Apesar de ocupar a vice-liderança, a Ferrari não conseguiu acompanhar a regularidade da adversária alemã.

Singapura reacende discussão sobre estratégia e confiança na Ferrari

O GP de Singapura trouxe mais um episódio para alimentar a pressão sobre Vasseur. A Ferrari apresentou bom desempenho ao longo do fim de semana, colocou Charles Leclerc e Lewis Hamilton nas primeiras posições e chegou à corrida principal com possibilidades de conquistar dois lugares no pódio.

Leclerc terminou em segundo, atrás de Max Verstappen, mas Hamilton caiu para sexto depois de uma decisão estratégica durante um período de safety-car virtual.

O britânico enfrentou dificuldades com os pneus médios no primeiro stint e precisou parar cedo. Mais tarde, quando surgiu a neutralização, a Ferrari tinha a oportunidade de chamar os dois pilotos aos boxes.

Segundo Vasseur, a equipe determinou que ambos entrassem, mas Hamilton perdeu a entrada dos boxes, comprometendo a possibilidade de permanecer entre os três primeiros.

O chefe da Ferrari explicou a estratégia adotada em Singapura e lamentou a perda do pódio de Hamilton, afirmando que a equipe havia iniciado a corrida com poucas referências sobre o comportamento dos pneus e buscava aumentar a pressão sobre Verstappen.

Entretanto, a câmera onboard de Hamilton registrou interferências na comunicação por rádio durante o período de VSC.

Na sequência analisada, não foi possível ouvir um chamado claro para o britânico entrar nos boxes. Também houve falha no aviso de encerramento da neutralização. Isso não permite afirmar que a decisão tenha sido exclusivamente um erro do piloto.

A Ferrari precisa encontrar um equilíbrio entre a autonomia de Hamilton, as decisões do muro de boxes e a comunicação com o piloto, especialmente quando uma oportunidade de pódio depende de uma reação imediata.

O caso representa uma dificuldade recorrente para a escuderia: transformar velocidade em resultados sem que decisões estratégicas ou problemas operacionais reduzam o potencial demonstrado na pista.

Ao mesmo tempo, Singapura não pode ser tratada como um fracasso completo. Leclerc conquistou o segundo lugar, Hamilton marcou pontos, e a Ferrari manteve a vice-liderança do Mundial.

Horner amplia pressão, mas substituição de Vasseur não é simples

Além dos resultados, Vasseur também enfrenta especulações sobre seu futuro. O nome de Christian Horner, ex-chefe da Red Bull, voltou a circular como possível alternativa para o comando da Ferrari.

A discussão ganhou força depois de declarações do britânico sobre a possibilidade de assumir a escuderia italiana e as condições para um eventual retorno à Fórmula 1.

A análise “Vasseur x Horner: por que substituição na chefia da Ferrari não é tão simples” detalhou as dificuldades políticas e administrativas de uma possível mudança no comando.

O principal obstáculo não é apenas a avaliação dos resultados esportivos. Horner também enfrenta resistências dentro da estrutura da Ferrari, e seu interesse em ter participação societária em um projeto de Fórmula 1 torna a negociação mais complexa.

A própria escuderia reagiu publicamente às especulações. Em setembro, a Ferrari reafirmou ter “total confiança” em Vasseur e declarou que já havia definido quem comandaria a equipe.

A pressão, entretanto, não desapareceu. As expectativas de conquistar títulos continuam elevadas, especialmente depois da contratação de Hamilton e da mudança de regulamento técnico em 2026.

O debate também chegou aos programas do GRANDE PRÊMIO. No Paddock GP, Evelyn Guimarães e Gabriel Carvalho analisaram se a Ferrari deveria manter Vasseur ou considerar Horner para 2027, defendendo a continuidade do dirigente francês.

Embora o nome de Horner continue presente nas discussões sobre o futuro da Ferrari, não existe confirmação oficial de negociação para substituir Vasseur.

Christian Horner (Foto: Fórmula E)

Ferrari evoluiu, mas ainda precisa transformar recuperação em títulos

A comparação histórica oferece argumentos tanto para defender quanto para questionar o trabalho de Vasseur.

Por um lado, a Ferrari apresenta em 2026 sua maior pontuação após 17 etapas durante a gestão do francês, ocupa o segundo lugar no Mundial e voltou a vencer corridas depois de terminar 2025 sem triunfos.

Por outro, a equipe continua 134 pontos atrás da Mercedes e não conseguiu repetir a proximidade com o título registrada em 2024.

Os números também demonstram que o desempenho da Ferrari não evoluiu de maneira linear. A diferença para o líder caiu de 359 pontos em 2023 para 51 em 2024, voltou a subir para 337 em 2025 e diminuiu novamente para 134 em 2026.

Fica a questão: a frieza dos números é pequena diante do turbilhão e do caldeirão que é a vida em Maranello?

A Fórmula 1 retorna entre 23 e 25 de outubro, para o GP dos Estados Unidos, em Austin. A Ferrari terá mais uma oportunidade de avaliar a competitividade do carro diante de Mercedes, Red Bull e McLaren, além de tentar reduzir a distância para a liderança do Mundial.

O GRANDE PRÊMIO acompanha todas as atividades da Fórmula 1, com notícias, resultados e análises da temporada 2026.