É de amplo conhecimento que o Azerbaijão tem um dos traçados mais excêntricos da Fórmula 1. Talvez em nenhum outro lugar exista um patamar tão extremo em termos de configuração dos carros. E diante do novo regulamento, isso se tornou ainda mais complexo. Porque o circuito urbano de Baku não só entrega a maior reta do calendário, como também dispõe de trechos muito lentos, mesclados com esquinas traiçoeiras, o que exige um compromisso impecável entre o gerenciamento do motor e uma alta eficiência aerodinâmica. Logo, não foi uma surpresa notar a liderança robusta da Mercedes nesta quinta-feira (24) esquisita de treinos livres. Quem sabe o único espanto tenha sido mesmo o fato de George Russell aparecer na ponta, com uma diferença de 0s5 para Andrea Kimi Antonelli. Mas isso também tem explicação.

Desde o início do ano, estava claro que a Mercedes havia acertado a mão no conjunto do W17. Do ponto de vista da aerodinâmica e da aderência mecânica, os engenheiros em Brackley optaram por um caminho convencional, mas muito eficiente. Ou seja, o carro prata e preto consegue se dar bem na maioria dos circuitos, especialmente em trechos que exigem maior velocidade de reta. E essa performance toda também é combinada com a ótima unidade de potência dos alemães, que tem na gestão da bateria o maior trunfo. Não à toa, a equipe dominou todas as etapas em que esse fator foi decisivo.

Isso se confirma também na análise dos diferentes setores da pista azeri. Das três partes, a Mercedes comanda duas: o segundo e o terceiro segmentos, que são um completo oposto, já que misturam curvas de baixa velocidade e a longa reta principal. Isso só é possível diante de um acerto que combina bem os níveis de downforce, ótima aderência mecânica e a força do motor. Russell foi quem liderou esses setores e com vantagens expressivas para a concorrência. Já Antonelli andou melhor que o companheiro apenas na primeira parte do traçado, onde perdeu somente para Lando Norris, o mais rápido naquele ponto. Mas a diferença entre eles é mínima, diga-se.

Diante desse cenário de favoritismo, só há uma ressalva. A falta de confiabilidade ainda segue rondando a garagem dos alemães. No primeiro treino livre, Kimi enfrentou uma falha hidráulica, e isso o fez perder um bom tempo de pista. No fim, da Mercedes precisou mudar a unidade de potência, lançando mão do motor atualizado em Monza. O atraso também afetou o programa técnico e impediu o líder do campeonato de se aproximar mais de Russell. Ainda assim, a esquadra da estrela foi capaz de conduzir uma curta simulação de corrida em que também exibiu força, andando constantemente à frente nas rivais.

E embora a tenha optado por manter a cautela neste início, não há como negar que a Mercedes encontra em Baku um palco perfeito para reviver o domínio o começo do campeonato. “Fizemos mais voltas rápidas com os pneus macios no TL2. Max [Verstappen] teve apenas uma tentativa, assim como as McLaren, então provavelmente não dá para tirar muitas conclusões disso, porque, a cada volta rápida que você fazia, os tempos melhoravam. Fizemos uma volta a mais que todos os outros e, por isso, provavelmente conseguimos extrair um pouco mais da pista e dos pneus do que eles tiveram a oportunidade de fazer”, disse Bradley Lord, vice-chefe de equipe.

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Max Verstappen foi quem mais perto da Mercedes chegou nesta quinta (Foto: Red Bull Content Pool)

É bem verdade que Verstappen fez uma única tentativa, mas é certo dizer que o neerlandês e a Red Bull trabalharam muito nesta quinta-feira, na tentativa de aprimorar o acerto do RB22 para a corrida do sábado. Assim como em Monza, Baku parece um lugar interessante também para os austríacos. Os engenheiros levaram atualizações importantes, especialmente no aspecto aerodinâmico, pensando nessa longa reta, e isso ficou claro durante os treinos. O carro azul-marinho se defendeu bem nos trechos rápidos, mas também entregou estabilidade em curvas. A diferença no cronômetro ainda é significativa, ainda que Max tenha sido o único a ficar a menos de 1s do líder Russell.

“Na verdade, foi um dia bem positivo. Estou bastante satisfeito com o carro”, avaliou o tetracampeão após o fim das atividades. “Vamos precisar fazer alguns pequenos ajustes e tentar encontrar mais alguns décimos por volta. Mas, de modo geral, foi um bom começo, com as atualizações funcionaram como esperávamos”, comemorou.

Portanto, é possível que Verstappen apareça muito bem na classificação, tentando se aproximar das Mercedes. Mas provavelmente não estará sozinho. Apesar da Ferrari ter se colocado logo atrás, em quarto e quinto no TL2, a McLaren parece ter mais potencial a ser explorado em Baku, mesmo diante de um Norris reticente.

O caso é que a esquadra laranja levou um pacote parrudo de novidades para a etapa azeri, com foco em uma melhor performance em reta, que tem sido o calcanhar de Aquiles do time em 2026. E a quinta-feira foi usada para testar as asas revisadas e os inovadores side-pods, bem como o novo assoalho, que acabou apresentando problemas durante o dia, e isso provocou um enorme atraso. “Detectamos uma rachadura no assoalho, abraçadeiras foram colocadas para amenizar a situação e impedir que piorasse enquanto decidíamos a solução definitiva. Então, poderíamos ter deixado como estava. Talvez tivesse dado certo se tivéssemos deixado daquele jeito. Mas não quisemos, estávamos com falta de peças”, explicou Rob Marshall, o diretor-técnico dos papaias.

“Colocamos muitas peças novas no carro hoje. Há muito o que aprender. Quando instalamos um novo pacote, precisamos aprender a ajustá-lo de forma ideal, e acho que ainda não conseguimos. Mas acredito que o carro parece estar fazendo o que queríamos”, completou.

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Lando Norris terminou o dia apenas em sexto (Foto: McLaren)

A McLaren tem como ponto forte a eficiência aerodinâmica, por isso os trechos de baixa velocidade e sinuosos de Baku se adaptam bem ao MCL40. Ainda que a diferença na tabela tenha sido assustadora na comparação com a Mercedes — cerca de 1s5 —, a equipe inglesa está muito mais perto em termos de ritmo de corrida, à frente da Red Bull e da Ferrari, inclusive.

A escuderia italiana, por sua vez, lutou muito contra o desgaste dos pneus nos treinos livres, mas foi capaz de equilibrar a limitação de potência que ainda tira o sono dos engenheiros. A SF-26 também se adapta bem a trechos mais tortuosos de Baku, só que a longa reta ainda cobra um preço alto. Há muito que fazer em Maranello. E Lewis Hamilton foi quem melhor traduziu o cenário dos vermelhos. “O carro parecia muito forte no primeiro treino livre, mas depois, por algum motivo, os outros deram um passo à frente no TL2.”

“Você faz uma volta de aquecimento e uma volta de preparação, e eles ainda não estão na janela ideal, ou ainda não oferecem a aderência necessária. E quando você dá uma volta extra, de repente eles funcionam, e de repente você tem muito mais aderência. Então é uma linha muito tênue e muito difícil de acertar”, emendou o heptacampeão.

Então, é possível dizer que a F1 viveu uma quinta-feira mais excêntrica, na medida em voltou um pouco mais ao normal, curiosamente em uma pista das mais singulares. A hierarquia de forças parece muito nítida, mas a classificação deve reservar surpresas, especialmente diante do potencial de caos do circuito urbano, com muros tão próximos e pista suja, além do jogo de vácuo que vai exigir muito dos pilotos na longa reta dos boxes.

O GRANDE PRÊMIO acompanha todas as atividades do GP do Azerbaijão AO VIVO E EM TEMPO REAL, além de classificação e corrida em SEGUNDA TELA no YouTube, em parceria com a Voz do Esporte. O Briefing chega para analisar após o fim de cada dia de atividades nas redes sociais e na GPTV. Além da cobertura completa, o GRANDE PRÊMIO está in loco com o repórter Leonid Kliuev.

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