O fim de semana de decisão da Fórmula E em Londres, última da era Gen3 e também na despedida da pista localizada na região das antigas Docas Reais, chegou com a promessa de luta generalizada pelo caneco. Afinal, nove pilotos tinham chances matemáticas. Mas foi aquele que viveu as maiores decepções na etapa anterior, em Tóquio, quem apertou o passo. No fim, Pascal Wehrlein conquistou o bicampeonato mundial de Fórmula E e viu todas as justificativas de suas escolhas aparecerem.
O terreno para o caneco foi estabelecido no sábado. Wehrlein começou a etapa somente cinco pontos atrás do líder Jake Dennis, é verdade, mas no terceiro lugar e vindo de duas corridas sem pontos em Tóquio. Mais do que isso, apesar da vitória e de um quarto lugar em Xangai, Pascal não havia pontuado em cinco das sete provas anteriores ao quebra-cocos em Londres. A sequência era preocupante, para dizer o mínimo.
Rapidamente, contudo, pôs as coisas em seus lugares. No sábado, deslizou pela classificação rumo à pole-position. É verdade, bom ressaltar, que nos confronto de semifinal e final viu os adversários estenderem o tapete vermelho para que vencesse — Dan Ticktum, que tenta convencer a Cupra Kiro, cliente da Porsche, e Nico Müller, companheiro de equipe.
Na corrida, trabalhou certinho e deu sorte com o timing de uma bandeira amarela para realizar o Pit Boost nos boxes com tranquilidade. Venceu, tomou a dianteira e partiu para o domingo com cinco pontos de vantagem para Dennis e vendo Mitch Evans, antes vice-líder, bem distante e com as chances enterradas. Era necessário basicamente terminar à frente de Dennis no domingo, e assim foi, ainda que com mais pitadas de drama por conta da batida que deixou os dois fora da zona de pontos na corrida 2, vencida por Taylor Barnard.
Wehrlein é campeão. Bicampeão. O segundo bicampeão da história da categoria e com dois títulos conquistados defendendo as cores imponentes da Porsche.
Quando decidiu ingressar na Fórmula E, na temporada 2018/19, com as memórias ainda frescas de tudo que deu errado na F1, Pascal chegou em uma Mahindra que já não tinha o fôlego dos anos anteriores. No meio da temporada seguinte, durante a longa parada forçada pela pandemia, deixou o time indiano e preparou o que viria em seguida: a Porsche.
Desde 2021, tornou-se o rosto da marca de Stuttgart e seu investimento pesado no campeonato — algo que se pagou para ambos. A batida na trave no 2023 da estreia dos carros de terceira geração virou trabalho direcionado para as falhas que ficaram evidentes e, com isso, o quase virou título no ano seguinte.

Dois anos depois, virou bicampeonato. Único campeão da Porsche no Mundial de Pilotos, também levou os compatriotas ao título de Construtores, consolidando a marca alemã como principal montadora e equipe da era Gen3.
Não foi fácil selecionar a Fórmula E, ainda em fase incerta naqueles primeiros anos como o próximo passo. Talvez seja difícil recordar hoje, mas Wehrlein foi o próximo nome da fila da Mercedes na F1 durante algum tempo. Na preparação para entrar no grid, foi colocado no DTM e, em 2015, tornou-se o então campeão mais jovem da categoria; em 2016, impulsionado pela grana da Mercedes, recebeu o lugar na nanica Manor.
Os dois anos que se seguiram tiveram algo de surrealismo. Naquele 2016, fez o único ponto da Manor no ano, um esforço hercúleo com um carro muito ruim, mas o problema foi receber ao longo do ano a companhia de outro jovem que a Mercedes queria testar: Esteban Ocon.
O recado estava claro: a marca alemã só apoiaria um deles no ano seguinte, e o escolhido iria para a Force India andar com um carro em melhores condições. Apesar de Wehrlein ter o único tento, foi Ocon o escolhido pela esquadra indiana e, por conseguinte, pela Mercedes. Pascal descolou um espaço na Sauber em 2017 e também fez os únicos cinco pontos do time na temporada. Mas a equipe foi vendida no meio do caminho e, mais uma vez, foi Wehrlein quem acabou fora.
A Fórmula E foi mais que uma salvação: foi uma escolha de um piloto que tinha alternativas naqueles anos seguintes. Acreditar na categoria elétrica foi uma escolha que já tinha se mostrado correta quando migrou para a Porsche, ganhou força com o título de 2024 e agora vira ponto de exclamação com o histórico bicampeonato.