A Fórmula E está encerrando mais um ciclo. A era Gen3 chega ao fim na temporada 2025/26, encerrando um capítulo que resume perfeitamente a história da categoria: um campeonato marcado pelo equilíbrio, por decisões imprevisíveis e por protagonistas capazes de escrever capítulos inesquecíveis.
São dez campeões diferentes em 11 anos de existência. Cada título teve um roteiro próprio. Ao longo dessa trajetória, a Fórmula E consolidou uma identidade em que estratégia, gestão de energia e capacidade de adaptação pesam tanto quanto velocidade pura, tornando cada campeonato diferente do anterior.
A lista de campeões também acompanha a evolução técnica da categoria. Dos primeiros carros Gen1, que exigiam troca de equipamento durante a corrida, passando pela evolução trazida pelo Gen2, até o atual Gen3, cada mudança de regulamento alterou a forma de competir e exigiu que pilotos e equipes se reinventassem constantemente para permanecer no topo.
Neste 10+, o GRANDE PRÊMIUM relembra os dez pilotos que já levantaram o troféu máximo da Fórmula E, revisitando campanhas históricas, decisões dramáticas e os momentos que transformaram cada um deles em campeão de uma das principais categorias de monopostos do mundo.
Nelsinho Piquet (2014/15)
Nelsinho Piquet chegou à etapa final, em Londres, como líder da temporada 2014/15. Após vencer a prova anterior, em Moscou, o brasileiro chegou à decisão do campeonato 17 pontos à frente do compatriota Lucas Di Grassi e a 23 de Sébastien Buemi — os três com chance de título.
Nelsinho viu Buemi cravar a pole-position e vencer a corrida 1, pulando para a vice-liderança e cortando a diferença para apenas 5 pontos. Di Grassi foi quarto e anotou a volta mais rápida, se mantendo vivo na briga. Na corrida derradeira, a sorte sorriu para o piloto da NEXTEV: após largar em 16º e tentar uma prova de recuperação, via o título escapar até que o suíço rodou na saída dos boxes após a troca de carros e ficou preso atrás de Bruno Senna até o fim da prova, cruzando a linha de chegada em quarto. O sétimo lugar foi suficiente para Piquet sagrar-se o primeiro campeão da história da Fórmula E por apenas 1 ponto.

Sébastien Buemi (2015/16)
Um ano após perder o título por um erro crasso, Buemi chegou a Londres determinado a levantar a taça que lhe escapara. Para isso, precisaria superar Di Grassi, rival ao longo de todo o campeonato e que chegou à rodada dupla com 1 ponto de vantagem. A primeira corrida não saiu da forma que esperava: o suíço terminou em quinto, uma posição atrás do brasileiro, que aumentou a diferença para 3 pontos.
No dia seguinte, Buemi cravou a pole-position, o que garantiu que ambos largassem na corrida 2 empatados em 153 tentos. Na partida, Di Grassi — que largou em terceiro — retardou a freada da curva 1 e se chocou com o rival, o que forçou ambos a anteciparem o uso do segundo carro para seguirem na prova.
Sabendo que os modelos Gen1 não tinham autonomia de bateria para completar a prova, travaram uma disputa para fazer a volta mais rápida e ganhar os pontos extras que garantiriam a conquista. Nessa, quem se deu melhor foi o suíço, que tinha a melhor marca quando abandonou e, após passar as 17 voltas finais nos boxes torcendo para ninguém superá-lo, conquistou o título em uma das decisões mais polêmicas da história da Fórmula E.
Lucas Di Grassi (2016/17)
Buemi dominou boa parte da temporada 2026/17, vencendo seis das primeiras oito corridas. Porém, a ausência do suíço na rodada dupla em Nova York por conflito de datas com o Mundial de Endurance manteve Di Grassi vivo no campeonato, chegando à etapa derradeira, em Montreal, apenas 10 pontos atrás.
O primeiro dia foi perfeito para o brasileiro: cravou a pole-position e venceu com autoridade, enquanto Buemi — que largou apenas em 12º — acabou desclassificado após terminar em quarto porque o carro da Renault estava abaixo do peso permitido pelo regulamento, o que fez Di Grassi assumir a liderança do campeonato.
Na corrida 2, adotou uma postura conservadora após começar em quinto e terminou em sétimo. Buemi teve problemas no pit-stop e chegou em 11º, garantindo o título de Di Grassi por 24 pontos.

Jean-Éric Vergne (2017/18 e 2018/19)
Até hoje, Jean-Éric Vergne é o único piloto com dois títulos da Fórmula E no nome. E ambas as conquistas foram históricas por si. Em 2017/18, o francês chegou à última rodada dupla, em Nova York, com 23 pontos de vantagem sobre Sam Bird, único que ainda tinha chance de desbancá-lo, e liquidou a fatura logo na corrida 1, quando o quinto lugar foi o suficiente para levantar o caneco, se tornando o primeiro piloto a selar o título de forma antecipada, além de ser o último campeão da primeira geração da categoria elétrica. No dia seguinte, venceu a segunda prova para fechar o campeonato com chave de ouro.
A temporada seguinte marcou o início da era Gen2, e sete pilotos chegaram à rodada dupla de Nova York com chance de título: Vergne liderava e podia ser campeão na corrida 1, mas Di Grassi, Buemi, Mitch Evans, André Lotterer, Robin Frijns e António Félix da Costa ainda sonhavam com a conquista.
Vergne teve um furo de pneu logo no início da corrida 1 que comprometeu todo o andamento da prova. Na volta final, ainda se envolveu em um incidente com Felipe Massa e terminou o dia zerado, levando a decisão para a prova derradeira. A prova foi vencida por Buemi, com Evans e Da Costa logo atrás.
No dia seguinte, quatro pilotos seguiam na disputa: Vergne, Di Grassi, Evans e Buemi. O francês teve uma abordagem mais cautelosa: largou em 12º e não arriscou muito para tentar brigar pela vitória, mas o sétimo lugar foi o bastante para torná-lo o primeiro bicampeão da categoria.

António Félix da Costa (2019/20)
A temporada 2019/20 foi marcada pela Covid-19. Quando a OMS decretou a pandemia, em março de 2020, a Fórmula E já havia realizado cinco corridas. Da Costa, que havia vencido a última, em Marrakesh, era líder quando o campeonato foi interrompido — sem qualquer certeza de ser retomado.
Para garantir a conclusão do certame, a Fórmula E pensou em uma solução inteligente: criar uma “bolha” em Berlim e realizar, em um espaço de nove dias, seis corridas, com três desenhos diferentes de traçados. E assim foi: entre os dias 5 e 13 de agosto, equipes, pilotos e staff se isolaram no Aeroporto de Templehof para definir quem seria o campeão.
Nem os seis meses de isolamento social foram suficientes para segurar Da Costa. O português venceu, de cara, as duas primeiras provas na capital alemã e, após um quarto lugar na terceira corrida, cruzou a linha de chegada em segundo na corrida 4 para garantir o título de forma antecipada.
Nyck de Vries (2020/21)
Para a temporada 2020/21, a Fórmula E ganhou status oficial de “campeonato mundial” por parte da FIA. E o primeiro campeão mundial foi Nyck de Vries. O neerlandês ocupava apenas o décimo lugar faltando quatro etapas para o fim, mas o campeonato foi tão maluco e equilibrado que permitiu uma ascensão meteórica do então piloto da Mercedes.
Na penúltima etapa, em Londres, subiu ao pódio nas duas provas do fim de semana, ambas no segundo lugar. Esses resultados permitiram que De Vries chegasse em Berlim na liderança, tamanho o equilíbrio do campeonato — para se ter uma ideia, 18 pilotos pousaram na Alemanha com chances matemáticas de título.

Na corrida 1, De Vries se envolveu em uma colisão com Alex Lynn, o que o forçou a ir para os boxes, e terminou apenas em 22º. Para sorte dele, a vitória ficou com Di Grassi, que ainda sonhava com a conquista, mas não estava entre os principais candidatos.
No dia seguinte, muitos dos maiores concorrentes abandonaram: Mortara e Evans se chocaram logo na largada, enquanto Dennis teve um problema mecânico que o fez bater na relargada. Com isso, o neerlandês precisou apenas se manter longe de problemas e cruzar a linha de chegada em oitavo para garantir a conquista.
Stoffel Vandoorne (2021/22)
A palavra que melhor define o título de Stoffel Vandoorne é “consistência”. O belga não foi o mais brilhante daquele campeonato; venceu apenas uma prova, enquanto Evans e Mortara triunfaram quatro vezes cada. Porém, o piloto da Mercedes só não pontuou uma vez, subiu ao pódio oito vezes e ficou no top-5 em outras cinco oportunidades. E a rodada dupla que definiu o campeonato, em Seul, foi o resumo perfeito da temporada.
Evans venceu a corrida 1, mas foi apenas sétimo na segunda prova. Já Mortara abandonou a primeira e venceu a segunda. Enquanto isso, Vandoorne foi quinto e segundo, o que foi suficiente para garantir o título. Essa consistência o fez garantir a conquista com 213 pontos, se tornando o primeiro piloto a alcançar a marca bicentenária.

Jake Dennis (2022/23)
A temporada 2022/23 marcou o início da era Gen3. E se a consistência já se mostrava importante até então, a atual geração elevou isso ainda mais e foi a principal chave para Jake Dennis ficar com o título em uma disputa contra Pascal Wehrlein, Mitch Evans e Nick Cassidy. Após uma impressionante sequência de seis pódios em sete corridas, incluindo uma vitória na segunda prova em Roma, o britânico chegou a Londres na liderança do campeonato.
Concorrente mais próximo e único que tinha chances mais reais de tirar a taça de Dennis, Cassidy fazia boa corrida 1, mantendo-se à frente do rival, mas, quando parecia que a decisão ia ficar para a última corrida, a Envision cometeu uma lambança. O neozelandês foi ceder o terceiro lugar para o companheiro Buemi, mas um erro de comunicação levou a um toque entre eles e ao abandono do #37. O terceiro lugar de Dennis — que sobreviveu intacto a uma corrida caótica, com múltiplas batidas e bandeiras vermelhas — foi o suficiente para garantir o título antecipadamente. O britânico encerrou a campanha com 229 pontos, recorde da categoria até hoje.
Pascal Wehrlein (2023/24)
A temporada 2023/24 foi a primeira que deixou nítida a tendência da maior parte da era Gen3: uma briga quase particular entre Porsche e Jaguar. Wehrlein começou a temporada com vitória, mas viu Cassidy — agora defendendo os felinos — brilhar e liderar por boa parte do campeonato. O alemão se manteve na briga durante todo o ano, mas a sorte virou mesmo na penúltima rodada dupla, em Portland, quando os felinos tiveram uma jornada desastrosa.
Cassidy liderava a corrida 1 até a penúltima volta, quando cometeu um erro sozinho, escapou da pista e despencou, terminando zerado. Já Evans recebeu punição por um incidente com Jake Hughes e, apesar de cruzar a linha de chegada na frente, caiu para oitavo. No dia seguinte, Cassidy se envolveu em um toque, precisou ir para os boxes e não pontuou novamente. Evans foi terceiro, com Wehrlein logo atrás.
A rodada dupla decisiva, em Londres, começou com Cassidy ainda na liderança, 12 pontos à frente de Evans e Wehrlein. O alemão conseguiu uma vitória importantíssima na primeira corrida e tomou a ponta do campeonato, seguido por Mitch. Nick sofreu para acompanhar o ritmo e terminou apenas em sétimo.
Na prova derradeira, Da Costa se envolveu em um incidente com Cassidy, causando o abandono do #37. Quando brigava diretamente na pista com o alemão pelo título, Evans passou com a roda por fora da zona de ativação do Modo Ataque. Quando foi tentar fazer o acionamento novamente, perdeu posição para Wehrlein, não conseguiu recuperar e o título ficou com o piloto da Porsche.

Oliver Rowland (2024/25)
Oliver Rowland e Nissan surpreenderam a todos com o forte ritmo apresentado no início da temporada 2024/25. Após passar em branco na abertura do campeonato, em São Paulo, o britânico emendou uma sequência impressionante de quatro vitórias e três segundos lugares nas oito provas seguintes. Essa forma exuberante, aliada aos altos e baixos dos principais concorrentes, deram uma excelente gordura para administrar na segunda metade de campeonato e tornaram o título mais uma questão de “quando” do que “se”.
E a conquista veio em Berlim. Rowland abandonou a corrida 1 após errar a freada da curva 6 e acertar Vandoorne, deixando extensos danos na direção da Nissan. O segundo lugar de Wehrlein, único que ainda tinha chances reais de título, parecia encaminhar a decisão para Londres.
Porém, o alemão cometeu erros estratégicos na corrida 2 que o fizeram terminar apenas em 15º. Diante disso, o quarto lugar foi o suficiente para garantir o título do britânico com duas corridas de antecedência.
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