A rodada dupla do eP de Tóquio marcou um dos fins de semana mais caóticos e decisivos da temporada 2025/26 da Fórmula E. Em um campeonato que segue completamente aberto até a etapa final, o Japão entregou de tudo: vitórias inesperadas, mudanças importantes no Mundial de Pilotos, estratégias controversas, acidentes marcantes e reviravoltas que podem definir o destino da disputa pelo título.

Jake Dennis foi o maior vencedor da rodada dupla ao transformar uma desvantagem de 32 pontos em liderança do campeonato, enquanto Nyck de Vries confirmou a reviravolta com mais uma vitória. Oliver Rowland, mesmo sem um carro dominante, segue vivo na disputa graças à própria consistência, e a Citroën encontrou motivos para sorrir em um fim de semana marcado pela emoção após a morte do chefe Cyril Blais.

Por outro lado, Tóquio também expôs fragilidades de alguns dos principais candidatos ao título. Pascal Wehrlein viu uma etapa desastrosa custar a liderança do campeonato, António Félix da Costa voltou a sofrer com incidentes que comprometeram uma corrida promissora e Edoardo Mortara perdeu terreno em um momento decisivo da temporada. Já a DS Penske deu mais um passo na trajetória melancólica que marca o fim da parceria entre Penske e DS, que está de saída da Fórmula E.

O GRANDE PRÊMIO analisa quem sai do eP de Tóquio em alta, embalado para a rodada dupla decisiva, e quem deixa o Japão pressionado ou com a sensação de que vai apenas cumprir tabela em Londres.

Jake Dennis pulou de quinto para a liderança do campeonato em Tóquio (Foto: Porsche)

Quem deixa o eP de Tóquio em alta

Jake Dennis

O salto de Jake Dennis na tabela em apenas uma etapa só não é inacreditável porque estamos falando de Fórmula E. O britânico chegou a Tóquio em quinto lugar no Mundial de Pilotos, 32 pontos atrás de Pascal Wehrlein. Ao término do fim de semana, é o novo líder do campeonato.

Claro que isso não foi entregue de presente. É verdade que outros candidatos ao título enfrentaram obstáculos, mas de nada adiantaria se Jake não tivesse bons resultados — e chamar de “bom” é até subestimar o desempenho no Japão. Após arrancar a fórceps a pole-position de Edoardo Mortara, ficou a três curvas de vencer a corrida 1 e perdeu apenas porque precisou tirar o pé para não ficar sem energia, jogando o triunfo no colo de Dan Ticktum.

Na corrida 2, teve uma atuação exuberante após largar apenas em 17º e chegou na penúltima volta babando para cima de Nyck de Vries e Nick Cassidy com Modo Ataque ativado para tomar a liderança. Acabou sendo prejudicado pela bandeira vermelha causada pelo incidente entre Mortara e Joel Eriksson que neutralizou a ativação, mas ainda fechou em um ótimo terceiro lugar.

Desde que anunciou a renovação com a Andretti para a era Gen4, Dennis vem batendo na tecla que acredita, sim, ser possível bater de frente com equipes de fábrica e voltar a ser campeão pilotando por uma cliente. Se a conquista vai, de fato, acontecer, iremos descobrir em Londres. O que já é possível cravar é que o britânico continua sendo um dos melhores e mais completos pilotos da categoria e, se tiver um carro minimamente competitivo e um time que não cometa erros de execução nas provas, é nome fortíssimo em qualquer disputa por título.

Nyck de Vries conseguiu ótima reviravolta em campeonato que começou abaixo das expectativas (Foto: Mahindra)

Nyck de Vries

A reviravolta de De Vries nesta temporada é digna de destaque. Após uma primeira metade de campeonato marcada por diversos erros custosos, o neerlandês chegou a ser quem tinha o saldo mais negativo na comparação entre potencial pelo equipamento em mãos e resultados entregues. Não à toa, Mortara é peça no tabuleiro do título desde o início.

A vitória redentora no eP de Mônaco parece ter sido uma injeção de confiança que fez Nyck virar a chave. Após acabar com a seca, tanto da Mahindra quanto própria, vem em uma ótima sequência de quatro top-10 nas últimas seis provas, contando com um pódio em Sanya e a vitória no domingo em Tóquio.

Verdade que ainda enfrenta altos em baixos. Na primeira prova no Japão e na segunda na China, terminou lá atrás. Mas esses resultados estão muito mais na conta de decisões estratégias erradas do que de erros técnicos, como na primeira parte da temporada.

O despertar veio tarde demais, e De Vries não chega a Londres como candidato real ao título — matematicamente, ainda pode alcançar Dennis, mas a combinação de resultados para isso acontecer beira a impossibilidade. Ainda assim, é importante fechar o campeonato em alta para chegar na temporada 2026/27 confiante e, com uma Mahindra cada vez mais sólida, iniciar a era Gen4 como postulante ao bicampeonato.

“Tirar leite de pedra” não é suficiente para descrever o que Rowland faz com fraco carro da Nissan (Foto: Nissan)

Oliver Rowland

Beira o inexplicável Rowland chegar a Londres com chances reais de ser campeão. Na temporada passada, o britânico e a Nissan tiveram um início de campeonato estupendo, com quatro vitórias e três segundos lugares nas nove primeiras provas, retrospecto que rendeu uma vantagem boa para ser administrada e culminou com a conquista do Mundial de Pilotos de forma antecipada, em Berlim. A queda de performance na segunda metade, porém, deixou mais perguntas que respostas para a atual edição. E a péssima forma da equipe japonesa em 2025/26 evidencia que aquela sequência foi muito mais um cometa que passou rapidamente do que algo sustentável a longo prazo.

Após ser um dos melhores classificadores da temporada passada, Rowland sofreu ao longo de toda essa campanha com falta de competitividade em voltas rápidas. Em ritmo de corrida, também passa longe da eficiência de equipes como Porsche, Jaguar, Mahindra e até mesmo Andretti. Ainda assim, a diferença para Dennis é de apenas 14 pontos, com 58 ainda em disputa. A explicação para isso está, justamente, entre o assento e o volante.

Rowland se tornou um dos pilotos mais completos não apenas da Fórmula E, mas do automobilismo de monopostos em geral. Velocidade nunca foi um problema, mas em parte da trajetória nas categorias de formação faltou controle emocional para tomar decisões que podem ser a diferença entre um resultado bom e ruim, o que causou oscilações e, talvez, uma chance de chegar à F1. Até os dias atuais não faz questão de esconder que, por vezes, sofre abalos na confiança que prejudicam a performance. Na categoria elétrica, porém, conseguiu desenvolver muito bem a leitura de corrida e, ao aliar isso ao potencial bruto que sempre esteve ali, tornou-se um dos melhores do grid.

Existe uma velha frase usada para elogiar um piloto que diz que ele “está correndo mais que o carro”. No caso de Rowland, ele está colocando a Nissan nas costas e carregando sozinho. Talvez seja um peso grande demais para sair de Londres com o bicampeonato, mas o fato de ainda estar na briga já torna essa uma das temporadas mais impressionantes de um piloto que a Fórmula E já viu.

eP de Tóquio foi primeira etapa após morte de Cyril Blais (Foto: Fórmula E)

Nick Cassidy e Citroën

Esse não foi um fim de semana qualquer para a Citroën. A equipe francesa chegou ao Japão dias após a trágica notícia da morte do chefe Cyril Blais. O engenheiro era uma figura querida no paddock da Fórmula E e a onda de comoção e homenagens na categoria não deixa dúvidas do tamanho do baque dessa perda. Ainda assim, Nick Cassidy conseguiu trazer um momento de alegria em meio ao luto.

Em uma pista onde anda bem desde os tempos de Maserati — venceu em Tóquio com Maxilimian Günther em 2024 e com Stoffel Vandoorne em 2025 —, a Citroën mostrou ritmo promissor desde o início do fim de semana e foi a única equipe a passar dos grupos da classificação de sábado com os dois carros. Na corrida, Cassidy foi ao pódio com o terceiro lugar, e Jean-Éric Vergne pontuou em sexto. No domingo, não conseguiu manter o mesmo ímpeto e sequer chegou aos duelos, mas o neozelandês brilhou novamente em uma corrida de pelotão para chegar em segundo, enquanto o francês salvou um ótimo quinto lugar. Mas todas as análises técnicas ou estratégicas ficam em segundo plano neste momento.

Pode não ter sido uma vitória. Mas para a Citroën, muito mais importante do que subir no degrau mais alto do pódio era demonstrar união durante o período mais difícil — do aspecto humano — que a equipe já passou. Cyril Blais era a força motriz que mantinha a escuderia em pé mesmo diante do caos e da instabilidade que marcou os últimos anos.

Ter uma boa performance em Tóquio era muito menos sobre pontos ou campeonatos e mais sobre honrar a memória de uma pessoa que foi um verdadeiro líder quando a equipe mais precisou. E é exatamente isso que foi entregue. Como dito na homenagem no carro: essa foi por você, Cyril.

Pascal Wehrlein deixou Tóquio zerado e perdeu liderança do Mundial de Pilotos (Foto: Fórmula E)

Quem deixa o eP de Tóquio em baixa

Pascal Wehrlein

A segunda metade de temporada de Pascal Wehrlein tem sido uma surpresa negativa. Tanto ele quanto a Porsche são reconhecidos por serem rápidos, eficientes e cometerem poucos erros. Entretanto, o que tem se visto nessa reta decisiva é totalmente o oposto disso. Desde o fim de semana em Berlim, quando celebrou os 75 anos no automobilismo com uma vitória de Nico Müller e um pódio de Wehrlein, a equipe tem sido irreconhecível.

O péssimo fim de semana em Mônaco não foi surpresa, já que tradicionalmente é um local onde a Porsche costuma sofrer. Mas a falta de ritmo para acompanhar a Andretti em Sanya e o erro do #94 que ocasionou um toque com Norman Nato e uma punição que o fez despencar para 14º já acenderam um sinal de alerta. Em Xangai, a ótima performance de Wehrlein — quando conquistou a pole-position e venceu a corrida 1 no sábado e chegou em quarto no dia seguinte — deram a sensação de que a tempestade havia passado. Mas o fim de semana em Tóquio talvez tenha sido o pior da temporada. Avaliação essa que tem muito menos a ver com ter saído zerado, mas sim com a forma que isso aconteceu.

Wehrlein se envolveu em um incidente com António Félix da Costa — que também teve Sébastien Buemi no meio — que acabou com a própria corrida no sábado. Só que, além da batida em si, o mais grave foi a reação do piloto e da equipe posteriormente, com acusações de que a Envision agiu de forma proposital para beneficiar a Jaguar. Alegações totalmente infundadas diante de uma situação que claramente foi causada pelo alemão, que jogou o desafeto no muro de forma bastante acintosa. Comportamento que demonstra um claro destempero de quem não está sabendo lidar com a situação adversa no campeonato e parece buscar culpados para a própria incapacidade de recuperar a forma de outrora.

No domingo, em nenhum momento deu sinais de estar na briga pela vitória e cruzou a linha de chegada em um modestíssimo 13º lugar. Após chegar no Japão como líder do campeonato, Wehrlein saiu na terceira posição. Em termos de pontos, o prejuízo poderia ser muito maior se a vitória não tivesse escapado de Dennis nas duas provas, o que manteve Pascal a apenas cinco tentos atrás. Para buscar a conquista em Londres, porém, será necessário reverter muito mais do que a diferença na pontuação. É preciso virar uma chave mental e voltar a ser aquele piloto frio e calculista, que faz exatamente o que precisa ser feito para sair vitorioso.

Batida entre Wehrlein e Da Costa (Vídeo: GPTV)

António Félix da Costa

Voltando na história, é muito difícil encontrar alguém que tenha tido tanto azar em uma temporada quando Da Costa. Desde a abertura do campeonato, quando foi abalroado por Pepe Martí na reta final do eP de São Paulo, o português esteve envolvido em uma sucessão de incidentes dos quais, na maioria das vezes, foi apenas passageiro da agonia.

Na Cidade do México, cometeu o único erro de consequências graves da temporada ao errar uma freada e acertar em cheio Maximilian Günther, acabando com a própria prova. Depois disso, levou uma pancada por trás de Felipe Drugovich em Miami, foi tocado por Nico Müller em Berlim, recebeu uma fechada feia de Ticktum que causou uma batida em Mônaco e, em Tóquio, teve o entreveiro já mencionado com Wehrlein.

Quando não encontrou esses obstáculos no caminho, o português mostrou ter encaixado como uma luva na Jaguar e conseguiu vencer duas vezes, em Jedá e Madri, além de subir no pódio na corrida 2 em Mônaco e na primeira prova em Xangai.

Da Costa ainda tem chances de ser campeão em Londres. Mas com Mitch Evans a apenas dois pontos de Dennis, a menos que algo fora do controle aconteça no sábado e mude totalmente o cenário para a prova decisiva, o lógico é a Jaguar priorizar o neozelandês, e o português atuar como escudeiro para ajudar o companheiro a conquistar o Mundial de Pilotos, além de auxiliar os felinos na conquista do título de Equipes. Após um campeonato inteiro sendo perseguido pela má sorte, é difícil crer que ela sorrirá para o português logo na etapa derradeira.

Edoardo Mortara definhou na reta final da temporada (Foto: Fórmula E)

Edoardo Mortara

Se Wehrlein teve uma queda acentuada na reta final do campeonato, Mortara não fica muito atrás. O suíço não conseguiu vencer ainda, mas vinha transformando o ritmo quase imbatível da Mahindra nas classificações em bons resultados e se mantinha firme na briga pelo título. Mas o declínio vertiginoso na perna asiática o deixou em maus lençóis para a rodada dupla em Londres.

Até a Fórmula E desembarcar na China, Mortara só não havia pontuado em São Paulo e na corrida 1 em Mônaco. De lá para cá, só ficou no top-10 em uma das últimas cinco provas — a primeira em Tóquio. Em Sanya, ficou a pé após ter o sistema de extinção de incêndio acionado por detritos que acertaram o carro. Saiu zerado também de Xangai após ser punido por um toque com Vergne na corrida 1 e sofrer com falta de ritmo na pista seca no dia seguinte. Já em Tóquio, após terminar em quinto no sábado, tocou a traseira de Joel Eriksson na penúltima volta e abandonou.

Com 30 pontos de desvantagem e 29 em disputa em cada dia, Mortara pode reviver as chances ainda na corrida 1 em Londres. Mas com a espiral negativa que entrou, será uma surpresa se o suíço atingir a perfeição necessária para buscar o título.

DS Penske vive temporada triste para encerrar parceria (Foto: Fórmula E)

DS Penske

A DS Penske está, de fato, destinada a um fim de era melancólico. De saída da Fórmula E, a DS certamente esperava encerrar esse capítulo de forma mais digna. Candidato constante a pódios e vitórias ao longo de toda a era Gen3, o time definha e amarga a vice-lanterna do Mundial de Equipes, com 56 pontos, sendo o único que não subiu no pódio uma vez sequer na temporada. E até mesmo quando parecia caminhar para um bom resultado, o caldo acabou entornando.

Barnard chegou aos duelos nas duas classificações do fim de semana, manteve o bom ritmo nas corridas e, em algum momento, figurou entre os candidatos à vitória. Porém, acabou superado na estratégia na corrida 1 e recebeu a bandeira quadriculada apenas em décimo. No dia seguinte, ficou preso atrás de Rowland mesmo com Modo Ataque ativado e teve de se contentar com o oitavo lugar. Enquanto isso, Günther teve mais um fim de semana apagado e, após passar em branco no sábado, marcou apenas 2 pontos com a nona posição.

Ao longo de 11 anos, a DS construiu um dos currículos mais vitoriosos da Fórmula E, com quatro títulos, 18 vitórias, 55 pódios e 26 pole-positions. Infelizmente, a temporada 2025/26 se tornou uma última página melancólica em uma história tão bonita escrita pela DS.

A Fórmula E retorna entre os dias 15 e 16 de agosto, com a última etapa da temporada 2025/26, a rodada dupla do eP de Londres. Emissora oficial no Brasil, o GRANDE PRÊMIO transmite todas as atividades de pista AO VIVO e COM IMAGENS no YouTube e na GPTV.

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